Sunday, October 23, 2016

Saturday, March 26, 2016

Quando a Arte vira Rock, Parte CXCI

 Portrait Of A Woman, Picasso, 1910, e a cantora PJ Harvey

Thursday, February 04, 2016

Quando a Arte vira Rock, Parte CXC

 "Portrait of George Lucks", Robert Henri, 1902, e Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys. 

Monday, January 25, 2016

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXIX

"Girl in Green", Chain Soutine, 1928, e Kathleen Hanna, vocalista do Bikini Kill e Le Tigre.

Monday, January 18, 2016

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXVIII


"Drawing of Caravaggio", Ottavio Leoni, 1621, e Mark Linkous, vocalista e guitarrista do Sparklehorse. 

Wednesday, January 13, 2016

Starman

"Commencing countdown, engines on. Check ingnition. And may God's love be with you. Ten, nine, eight, seven, six, five, four, three, two, one. Liftoff." ("Space Oddity", David Bowie) 

8 de janeiro de 1947. Ele caiu na Terra. Despencou precisamente ao sul de Londres, Inglaterra, um bairro humilde. Sua missão no planeta azul começava. A metamorfose em Homo sapiens, essa espécie frágil, tão antiquada e atrasada, não foi nada difícil. O plano era percorrer o ciclo completo. Embrião, feto, bebê. Células programadas para assumir o fenótipo de um menino, depois homem e aí velho. Alternativa não imutável. Se o tédio viesse, causando aquela ebulição genética à qual já se acostumara, tudo sob controle. Poderia escolher aquele outro sexo. Ou sexo nenhum. E voltaria a ser quem ele sempre fora. Revelaria sua identidade. Sem medo de alarde, captura, experimentos científicos, mutilações. Porque, quando este dia chegasse, as mentes dos terráqueos já estariam irremediavelmente dominadas. 
E assim foi a conquista. 
Para viciar ouvidos humanos dispersos por cinco continentes, o som precisava ser intenso, irresistível, um feitiço. Então ele, químico, preparou fórmulas para as melhores canções. Preferiu de início não causar enorme estranhamento. Apenas encantamento. Obteve sucesso. Atenções e cérebros se renderam ao poder de suas melodias. Aí ele ousou. O disfarce já não era necessário. DNA recombinado, ele surgiu como nascera. A imagem que sempre fora, e que sempre seria, caso ainda morasse em um infinito lá longe, onde o tempo nunca existiria. 
Para ele, a audição não era o bastante. Queria o monopólio também da visão. Explodiu em cores, texturas, ondas. Vestiu tecidos que gritavam cada matiz do arco-íris. Provocou ao ajustá-los à sua delgada silhueta sideral - ou ao usá-los em ângulos inusitados. Cabelo no tom de Marte. Mais tarde, outra mudança. Desbotou, apagou-se. Preto e branco. Tão branco que a ausência de cor foi um de seus nomes. Engrandecido por um título de nobreza. Vitória novamente. 
Seu estilo, audácia, sua liberdade foram absorvidos, mimetizados, reproduzidos pelos habitantes do planeta feito de água, mas curiosamente batizado de Terra. Não foi o bastante. Ele queria mais. Não só se comunicar pela língua da Música. Havia o desejo de se sentir humano. Fingir ser um, mas sem ofuscar sua personalidade. Então ele interpretou. Viveu a vida de um presidiário, e a de um cientista. Viveu uma vida sem vida: um vampiro. E seu melhor papel foi ser ele próprio, autêntico. Sua origem foi uma ficção registrada em rolos de celuloide. The Man Who Fell To Earth.  
Missão dada, missão cumprida. Em um pequeno ponto da via-láctea, ele hipnotizou neurônios e fincou em corações sua bandeira de conquistador.  Mas o imprevisto sempre acontece. Anos e anos terrestres. Noites e noites e noites estreladas e ele, o lar, pairando no espaço distante. Chamando.
Bateu a saudade. 
Mas...como viajar, como voltar para casa? Afinal, há sessenta e nove anos ele não aterrissara. Caíra. E a nave se fora. 
10 de janeiro de 2016. Ele partiu. Lá de cima, um raio - o raio que o tatuava - brilhou no céu e desceu fulminante, partindo nossos corações. E neles riscando a pergunta: mas por que nos deixar tão cedo? O Universo poderia explicar porque afastou de seus servos o melhor dos senhores? Existe um Deus que forneça a resposta?
Sim.
E a resposta veio cento e vinte e oito anos antes da pergunta. Na caligrafia de um mortal, mas também destinado à imortalidade. Um holandês tão angustiado quanto talentoso - e subestimado. Vincent Van Gogh nunca foi um homem do espaço, mas amava o firmamento em uma noite cheia de luzes. E decifrou, em uma carta endereçada a seu irmão, quais as maneiras de se viajar até as estrelas:

"...the sight of the stars always makes me dream in as simple a way as the black spots on the map, representing towns and villages, make me dream. 
  Why, I say to myself, should the spots of light in the firmament be less accessible to us than the black spots on the map of France.
   Just as we take the train to go to Tarascon or Rouen, we take death to go to a star. What's certainly true in this argument is that while alive, we cannot go to a star, any more than once dead we'd be able to take the train. So it seems to me not impossible that cholera, the stone, consumption, cancer are celestial means of locomotion, just as steamboats, omnibuses and the railway are terrestrial ones.
   To die peacefully of old age would be to go there on foot."

Ele tinha pressa. Urgência em cruzar o espaço na velocidade da luz, polvilhando seu rastro de poeira estelar. Alcançar a sua estrela natal, sua casa. Ele não era Skywalker, jamais se conformaria com pequenos passos. David Bowie, rebel, hero. Eternamente, Starman.   

Sunday, August 30, 2015

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXVII


"Portrait Of a Man, Jan Van Eyck, 1432, e Richard File, vocalista do UNKLE e guitarrista do We Fell To Earth.

Friday, January 02, 2015

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXVI


Study For The Head Of George Dyer, Francis Bacon, 1967, e o cantor Leonard Cohen. 

Sunday, August 17, 2014

The Glam Spider Living Under My Rotten Skin

Feliz da vida por encontrar serventia para muitos batons, blush, pó facial, sombras e lápis de olhos com prazos de validade vencidos. Aí foi combinar tudo com lápis de cor, lembranças daquelas fotos lindamente aterrorizantes dos livros de Medicina dos meus pais, filtro Mayfair do Instagram. E David Bowie como muso inspirador!

Sunday, May 11, 2014

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXV


Preciso falar alguma coisa, rs? Não é zoeira, não. É mesmo uma estátua egípcia antiga (não achei o século), exposta em um museu de Chicago. A semelhança é tão descarada que, claro, não fui a única a perceber. Pesquisando nas imagens do Google vi que algumas páginas já tinham feito a descoberta antes de mim. Mas vale a postagem. Primeiro fiquei um pouco em dúvida quanto ao título. Ele foi rei do pop, rock não. Mas aí caiu a ficha: e por acaso alguém viveu uma vida mais punk rock do que a dele?  

Thursday, May 01, 2014

As Entrevistas do João

Nunca vi pessoalmente o João. Ele é meu amigo conhecido pelo Face, graças à minha querida amiga Anna Lim. Ou seja, melhor recomendação não pode haver. O João mora lá no Rio Grande do Sul, em uma cidade chamada Taquara. Uns anos mais velho do que eu. E um cara apaixonado por música! O João gosta de ouvir. Mas não apenas melodias. Ele, observador, interessado, curioso, quer saber qual a importância da música no passado e no presente dos seus amigos. Então ele criou um simpático blog. E teve uma ideia bacana - e generosa. Iniciar o espacinho dele dando voz aos outros. Cada post é uma entrevista. O João fez uma listinha de perguntas musicais para que seus convidados derramassem sua paixão pelo tema. Fiquei muito contente porque ele pediu minha participação. Algumas entrevistas já foram publicadas antes da minha. Gostosas de ler, bate aquela nostalgia. Quem lê se sente próximo de pessoas desconhecidas: gente comum, como a gente, muitos não são músicos e nem trabalham na área. Toda essa despretensão com ares caseiros aquece o coração da gente durante a leitura do bloguinho. Minha entrevistinha está no link abaixo. E eu espero, ansiosa, por uma autoentrevista do João (viu, João?).


http://musicajlls.blogspot.com.br/2014/05/entrevista-ana-luisa-barros.html
   

Saturday, March 01, 2014

Alhos com Bulgalhos





Inspirada pela coluna do Álvaro Pereira Júnior publicada hoje na Folha Ilustrada, minha lista de imbroglios mentais!
O Álvaro escreveu que costuma confundir palavras. Devido à grafia semelhante. Ou porque são nomes de pessoas que se parecem. Ou então nada disso. O cérebro tem mania de relacionar coisas e gente que não têm nada a ver entre si.
Quando acontece comigo, às vezes são necessários uns segundos até as engrenagens pegarem no tranco e eu desfazer o nó da confusão, separando quem é quem, o quê é o quê, onde é onde. Outras vezes, só apelando para São Google. E nem sempre rola o milagre da cura: minutos depois, a informação assimilada cai na pasta "lixeira" e os miolos voltam a misturar alhos com bulgalhos.  
Antes da lista, só uma observação. Os enganos envolvendo Mark Lanegan e PJ Harvey são do tempo em que eu vivia imersa nas trevas e ainda não os conhecia muito bem. Nada bem, vai.  
 
1. Itaparica x Itamambuca
Tudo água, sal, areia, coqueiro e cacau. 
 
2. Estocolmo x Edimburgo
Tudo Europa, tudo láaaa pra cima, tudo frio.
 
3. John Galliano x Jean Paul Gaultier
Tudo moda, tudo Paris, tudo além do meu orçamento. Um, é o Capitão Gancho de carne e osso; o outro, o marinheiro Popeye de carne e osso. Só falta eu ligar os nomes aos rostos.
 
4. Grace Kelly x Ingrid Bergman
Tudo Hollywood das antigas, tudo loira, tudo cabelo penteado pra dentro, tudo classuda.  
 
5. Laranja Mecânica x O Massacre da Serra Elétrica
Tudo louco matando alguém, tudo com alguma engenhoca que não é revólver.
 
6. Mark Lanegan do Screaming Trees x vocalista do Soul Asylum
Tudo grunge, tudo ruivo, tudo cabelo comprido, tudo camisa de flanela.
 
7. PJ Harvey x Run DMC x Ice-T
Tudo rap.
 
8. PJ Harvey x KD Lang
Tudo a mesma pessoa, tudo vestida de terno, tudo cantando música tipo Sade.
 
9. Kevin Bacon x Kevin Spacey
Tudo Hollywood atual, tudo Kevin (já disse para um amigo que ele era a cara do Bacon, pra segundos depois corrigir e mudar para o Spacey. O sorriso que tinha aberto na cara dele virou carranca. E ele nunca mais me tratou muito bem).
 
10. John Taylor, James Taylor, Nick Taylor, Roger Taylor, Robert Taylor, Andy Taylor, Adam Taylor, Qualquer-Nome-em-Inglês-de-Homem Taylor.
Tudo Duran Duran.
 
11. Bette Davis x Greta Garbo x Marlene Dietrich
Tudo Hollywood das antigas, tudo ruiva, tudo vilã, tudo nariz comprido, tudo sobrancelha fina, tudo cara da rainha da Branca de Neve num uniforme da Gestapo.
 
12. framboesa, amora, groselha, mirtilo, oxiurus (hã....sorry. oxiCOCO)
Tudo fruta, tudo vermelha, ou tudo roxa, tudo pequena, tudo azeda, tudo "alguma-coisa-berry" em inglês.
 
13. Wilza Carla x Elke Maravilha x Rogéria
Tudo Silvio Santos, ou tudo Chacrinha, tudo rosto bem redondo, tudo maquiagem de palhaço, tudo parecendo - ou sendo - traveca.
 
14. Katharine Hepburn x Rita Hayworth
Tudo Hollywood das antigas, tudo ruiva, tudo cabelo comprido, tudo mulher fatal, tudo fumante, tudo Gilda e Jessica Rabbit.
 
15. O Exorcista x Carrie, a Estranha
Tudo ruiva (é, de novo. Cabelo vermelho dá pane nas minhas sinapses), tudo de camisola, tudo de olho virado, tudo possuída pelo capeta. 
 
16. queratina x quitina
Tudo proteína que fortalece o seu cabelo ou as suas baratas.
 
17. Escrava Isaura x Sinhá Moça
Tudo Lucélia Santos enfiada num vestido de época.
 
18. Escrava Isaura x Cigana Rosa Madalena
Tudo música do Sidney Magal.
 
19. Francisco Franco x Salazar x Zapata Salazar
Tudo ditador na Península Ibérica (tem o portuga relacionado aos Cravos; tem o que tem um nome parecido no México), tudo envolvido com alguma guerrilha civil fotografada pelo Frank Capra, ou melhor, Frank Zappa, quero dizer, Robert Capa! Tudo um balaio latino de gatos em que tudo que é variação do nome "Francisco" tem a ver com alguém que faz rima com "salada", "sapata" ou "cabra".    
 
E, para fechar com chave de ouro,....uma confusão que não é semântica, e sim visual!
 
Juro pelos meus discos do Lanegan: eu já era grandinha (e, quando digo grandinha, quero dizer maior de idade) quando, ao passar diante de um bar, abismada, me dei conta:
 
O logo dessa empresa, na verdade mostrava essa forma geométrica, pintada nessa cor capciosa, contendo fofuras dessa espécie.
 
E não.....a cara dele.
 
Bom Carnaval! Esquimó!
 
Sorry.
 
Esquindô!  

Thursday, January 30, 2014

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXIV

 Gino Severini, Self Portrait, 1916, e Bryan Ferry, vocalista do Roxy Music.

Monday, December 23, 2013

Art, Music, Love - 2013

Mais-mais do ano. Do meu ano.

Filmes
Tony Parsons, além de crítico musical, é escritor. Já na primeira página de "The Family Way", um de seus romances, ele avisa: "pais estragam a primeira parte da sua vida; filhos, a segunda". O austríaco "Paradise: Hope" tem aquela melancolia dos filmes de Sofia Coppola e Wes Anderson. Meninos e meninas tendo seus dias estragados por pais obtusos. A molecada, despejada e meio esquecida em uma espécie de acampamento de férias para adolescentes gordinhos, vive uma rotina de pouca comida, horários rígidos e desajeitadas sessões de ginástica. O filme encanta quando você se dá conta de que a turminha, conformada, aceita na boa aquilo que é repugnante para seus pais: seus corpos.
O que leva uma menina linda, rica, amada pela família a gostar de se prostituir? Aos dezessete anos, nem a própria Isabelle sabe explicar. Filme inteligente, que te obriga a prestar atenção no ambiente e personagens cercando a protagonista, para então achar suas respostas. E é impressionante como um homem conseguiu entender e reproduzir a por vezes tensa relação entre duas mulheres. Uma garota bonita, que o tempo aos poucos carrega em direção ao auge da beleza, e uma mãe ainda bela, mas que caminha na contramão. Destaque para a cena da festa, em que Isabelle dança ao som de "Teen Angst" do M83.

  
Livros
Desesperado, um rapaz persegue a ex-namorada. Fugindo em um carro, a garota transporta no banco do passageiro um bem valioso. O coração do moço. Uma mulher corre desesperada pelas ruas da cidade. Não consegue se esconder do leão que a ameaça, e que conhece tão bem. Era um desenho tatuado em seu corpo, que misteriosamente ganhou vida. Uma esposa não sabe lidar com o marido derretendo como neve. Um homem não compreende porque, dia-a-dia, sua mulher vai encolhendo um pouco. Fábula fantástica, original e encantadora condensada em um livrinho curto, de capa charmosa. Se eu pudesse escolher alguém para filmá-la, com certeza seria Michel Gondry.
Estou na metade, e adorando. Lançamento em inglês de "El Ruido De Las Cosas Al Caer". Bogotá, anos 90, truculência e medo semeados pelo crime organizado, que extermina políticos, juízes e acerta contas com ex-comparsas. Em meio ao caos, cidadãos comuns sofrem as consequências. No centro da cidade, motoqueiros armados matam um ex-presidiário e ferem gravemente um jovem professor de Direito. Anos depois, marcado pelo trauma, ele inicia uma investigação. Narrativa linda e poética do que é sobreviver e se apaixonar em um país violento da América do Sul. E também daqueles sentimentos e impressões universais; o protagonista, ao conhecer a filha do homem que viu morrer, explica: "I immediately realized she was about the same age as me, more or less, although I couldn't say what secret generational communication there was between the two os us, or if such a thing really exists: an ensemble of gestures or words or a certain tone of voice, a way of saying hello or thanks or of moving or crossing our legs when we sit down, that we share with others members of our litter." (observação: adoro "The National", a banda. Porque, além da música incrível, nossas idades estão meio emparelhadas. Sempre considerei os rapazes como sendo "do meu pessoal", rs. Por isso, fiquei feliz quando eles estouraram!)
Muito divertido. Cada capítulo é uma minibiografia focada nos infortúnios amorosos de trinta e sete célebres filósofos, entre eles Platão, São Tomás de Aquino, Nietzsche, Simone de Beauvoir. Gente que tomou muito toco, pé-na-bunda e chifre do ser amado. Quem não foi desprezado, suportou ofensas e desaforos. Sócrates foi um, casado com uma megera. Resignado, o sábio costumava dizer: "se você conseguir uma boa esposa, será feliz; se conseguir uma péssima, vai se tornar filósofo".

Músicas
Entre 1810 e 1820, o pintor espanhol Francisco de Goya criou oitenta e duas ilustrações, desenhos em preto-e-branco. A série, entitulada "Desastres de la Guerra', reproduzia os horrores das batalhas entre soldados espanhóis e o exército de Napoleão. Duzentos anos depois, Mark Lanegan se uniu ao instrumentista inglês Duke Garwood e compôs a canção que, coincidência ou não (taí uma boa pergunta para uma entrevista), traduz em palavras e melodia toda a dor das gravuras de Goya. Lanegan abaixa um tom de sua voz de trovão, elimina a aspereza e emite um débil lamento, incorporando com perfeição a angústia de um soldado ferido e assombrado pelos espectros de sua memória. Violão, harpa e clarinete embalam a desesperança do vocal. A letra, a exemplo dos trabalhos de Goya, é também uma obra de arte (clique nas imagens de Goya): 
"Good, have I done good?
Give my first and last medal
Observed in ritual behind the door
A heavy ivory white door
Where I've come off my hinges
Without wanting to
Wasn't nothing else to do
Saw officers shot from their saddles
Through driving snow and through black smoke
Eyes rolled back in their heads
Entire battalions snuffed like a spark
Beat like a heart
Drowned by an ocean
Don't tell me the ending of the play
Don't make me look
Look in the mirror
John Grant é um coitado. Um verdadeiro coitado. A ótima banda americana The Czars, da qual era vocalista e compositor, nunca alcançou os merecidos sucesso e reconhecimento. Durou dez anos e chegou ao fim em 2004. Desiludido, Grant rolou ladeira abaixo: álcool, drogas, o fim de um relacionamento. Proveniente de uma família protestante rígida, aos sete anos de idade percebeu que sentia atração por meninos. Foi ridicularizado na escola e cresceu tomado pelo sentimento de culpa por ser homossexual. Em 2010, motivado pela própria ruina financeira - a qual impedia até o tratamento odontológico de dentes em queda - John Grant voltou à ativa e lançou um disco maravilhoso em parceria com a banda Midlake. O álbum foi muito elogiado, Grant retomou turnês, saindo do vermelho. E em 2013, a voz grave mais límpida do indierock nos dá de presente essa canção com levada electro, que faz parte do disco de mesmo nome. Mesclada com os sintetizadores dos islandeses do GusGus, a voz cristalina de John Grant divaga: "pale green ghosts must take care/Release themselves into the air/Reminding me I must be aware". E sim, ele tem mesmo que estar alerta. O cantor atualmente administra o campo minado que é seu próprio organismo. Grant descobriu ser soro positivo, infectado por um ex-namorado. Viu, seu Morrissey? Isso sim é sofrimento. Não mimimi.

Husbands, Savages
Punk rock acelerado em que a guitarra por si só parece o motor de um carro a mil por hora. A vocalista, herdeira de Siouxsie e Nina Hagen, tem o sono abalado pela visão de um cara. O sujeito mexe com ela. "Will I see him again?", pergunta.


Shows
Vi só quatro, então dá para comentar todos:
The Cure, São Paulo
Setlist generoso em quantidade e qualidade. Devem ter sido umas trinta músicas. Impressionante: entre as bandas que integraram a Santíssima Trindade dos anos 80 (The Smiths e New Order), the Cure é aquela com maior número de hits radiofônicos. E não são poucos. Até para quem não tem o costume de acompanhar o mundinho musical, impossível boiar e se sentir de lado durante a apresentação. Mas fui embora um pouco desapontada. "Disintegration", minha favorita, não rolou.

Savages, Londres
Contei aqui. Terminado o show, o choque era tamanho que eu tive certeza absoluta de que essas quatro meninas são confeccionadas em outro material. Ninguém de carne e osso faz o que meus olhos viram e minhas orelhas escutaram.

Mark Lanegan, Union Chapel, Londres
Em 2009, vi Lanegan cantando pela primeira vez nessa linda igreja vitoriana. Parecia um gato desconfiado, nada à vontade diante dos olhares do público, com reflexos à flor da pele para escapar dali assim que a última palavra fosse cantada. O show, acústico, era conduzido por seu companheiro de palco, o despachado Greg Dulli. Lanegan se deixava levar, recolhido, sem contato visual, sem interagir com a plateia. Três anos depois, a voz ainda é a mesma - e também os cabelos. Mas a postura...quanta diferença. Ele continua a não sorrir. Mas emite segurança. Dá para captar no ar o seu prazer em mostrar aos pagantes um trabalho do qual ele agora se orgulha. Finalmente, aos quarenta e nove anos de idade, Mark Lanegan não hesita mais em reconhecer que é digno de muito valor. Fiquei feliz pelo Lanegão. Gostar de si, dos frutos do próprio trabalho, e ter autoconfiança são sinais de que uma aposentadoria não chegará tão cedo. Agora que ele não precisa mais de mim, rs, vou deixá-lo seguir em paz, deixando de seguí-lo sem paz. Acredite se quiser, mas em 2013 virei uma fã discreta. Stalkear cansa.

Daughter, Berlim
Comprei o ingresso atraída pela perspectiva de ouvir uma única canção. Eu me encantei com "Youth" assim que a escutei pela primeira vez. Era o pano de fundo de um vídeo de moda, com imagens de modelos sendo maquiadas no backstage de um desfile. Não fazia a mínima ideia de qual banda seria a música, que tem uma letra linda. E, felizmente, bastante peculiar. Afinal, não é a toda hora que alguém revela habilidade suficiente para embaralhar vocábulos bem usuais de forma a montar uma frase tão cheia de poesia e doce autoironia quanto "setting fire to our insides for fun". Então, foi só acrescentar a tudo isso a palavrinha "lyrics", dar um google, e pronto. Achei o Daughter. Só que ao vivo....o Daughter não funciona. Nem Youth, - de longe, mas de muito longe mesmo - a melhor canção do Daughter, honra a versão de estúdio. A bateria perde a força. A sincronia entre a bonita voz da cantora e a guitarra, que deveria açucarar as batidas do baterista, não é alcançada pelos músicos. Se você passou dos vinte, passe reto pelos shows do Daughter. E se você mede menos do que um metro e oitenta de altura, passe reto por qualquer show na Alemanha.


Exposições
David Bowie Is - Victoria & Albert Museum, Londres
Objetos pessoais, posters, figurinos sem fim de todas as fases da carreira (Ziggy Stardust era praticamente anoréxico!), vídeos e, como não poderia faltar, a música. Não é uma exposição convencional. Você circula pelas salas com fones de ouvido, segurando um sensor. Não é audioguia. Parando na frente por exemplo de uma foto, o dispositivo é sincronizado com a sua posição. A voz do cantor, colhida em entrevistas, explica quais o significado e importância daquela imagem. As canções tocam, personalizadas, cada vez que você se coloca diante de um monitor com videoclip. E há um, gigantesco, transmitindo um show! Bowie cantando a plenos pulmões, para uma platéia extasiada, a absurda Heroes. Arrepia a pele, os cabelos, a alma. Vi até gente cantando e dançando no meio das peças expostas. No fim de janeiro, o acervo inteiro será mostrado pelo MIS em São Paulo. Imperdível. Garantia de uma overdose de serotonina.
 Vermeer & Music: The Art of Love & Leisure, National Gallery, Londres
Johannes Vermeer (1632-1675) sempre será o pintor número dois da Holanda. Ou três, para quem prefere Mondrian. Não dá para competir com Van Gogh. Comparar então, seria até covardia. E injusto. Vermeer foi talentoso naquilo que pintou. Seu quadro mais famoso é a linda Moça com Brinco de Pérola, cuja história, romanceada, ganhou um livro e filme (com as feições de Scarlett Johansson). Artista de praticamente um tema só, o holandês retratava cenas domésticas cotidianas, com gente comum, não da nobreza palaciana. Tinha predileção por reproduzir mulheres em suas típicas tarefas. Costurando, lendo, preparando refeições. O encanto dessas obras está na postura e expressão das moças. O aconchego, o ambiente intimista e clareado pelo sol, o ar despretensioso e pensativo de jovens com olhos sonhadores e melancólicos provocam empatia  em quem observa o trabalho do holandês. Durante o século XVII, a música valorizava o passe de uma moça candidata ao casamento. Saber tocar um instrumento fazia parte do currículo para uma boa educação. Mas para uma moça e um pretendente apaixonados, a música ganhava um significado especial e muito maior. Meninas de família deviam manter a reputação, preservar a pureza. Impensável que uma garota fosse deixada a sós com um rapaz. Encontros, só na presença de pais ou empregadas, damas de companhia. Havia, porém, uma pequenina brecha, um jeitinho de contornar o protocolo. Era a música. Se um casal estivesse entretido, tocando viola, cravo ou cantando, sinal de que não estaria se tocando. A vigilância afrouxava. A exposição gloriosa montada na National Gallery enfoca justamente a sutileza, a química silenciosa e sensorial entre pessoas que se amam ou simplesmente se desejam. Quadros de Vermeer, como "The Music Lesson" (que postei acima), e de seus outros contemporâneos recriam o clima, a tensão sexual, a troca de olhares, a atração reprimida mas latente. Vermeer é o mestre que conseguiu dar forma e cores não apenas à distância física entre dois amantes, mas à sintonia invisível unindo seus corações.

Feliz finzinho de Ano Velho; feliz Ano Novo, do começo ao fim.
Beijo
Ana    

Monday, December 09, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXIII



Testa di Ragazza, Luigi Conconi, 1852-1917
Rachel Zeffira, vocalista do Cat´s Eyes

Sunday, November 24, 2013

As Selvagens


Selvagem. E elegância. E você logo pensa em um efeito próton e próton. Tente sobrepor as palavras. Não vai. Repele. Só que não. Ou não sempre. E nunca se alguém estiver, em transe, na frente de um tablado, jaula sem grades por onde serpenteia uma fera. Jehnny Beth. Pseudônimo inglês de Camille Berthomier, francesinha trabalhando em Londres. Estrutura óssea alongada, esguia, felina, esculpida em ângulos. Finamente embrulhada. A camisa branca de seda sustentada pelo omoplata se abre e desce rascunhando uma fenda central comprida. Para então só se fechar a um palmo da calça de alfaiataria que a segura ajustada, abraçando a cintura. Fios curtinhos margeando a face refinada, Jehnny Beth é a modelo clicada por Helmut Newton em 1975. Ganhou vida, despiu, deixou cair na calçada o casaco Yves Saint Laurent e saltou da fotografia que estampava uma página da Vogue, largando para trás o cigarro aceso sobre o asfalto de uma viela parisiense. Em 2013, novembro, era ela sim. Adornada, de baixo para cima, por luzes ao norte de Londres. Seus passos quebrados, quadril insinuando para os lados, andar deslizando e flutuando acima de uma massa de fisionomias hipnotizadas. Poderia ser uma manequim enfeitiçando desfile de alta-costura. Mas não era passarela. Palco sim. E, embora houvesse música, a melodia não escorria, sutil, delicada e artificial, de cantinhos no teto, como mero repeteco de um som gravado e mixado no passado. O som, orgânico, brutal, era liberado por explosões simultâneas. Violento Big Bang detonado em frenética artilharia por não um, mas quatro núcleos pulsantes: Jehnny Beth, sol branco, irradiando luz e energia moldadas como voz potente o bastante para incendiar Londres inteira. Em sua órbita, três estrelas negras. Lado esquerdo, a guitarrista Gemma Thompson. Aye Hassan, baixista, e seus três braços, na direita. Pairando sobre o resto da constelação, Fay Milton, tempestade de descargas elétricas estremecendo metais em uma bateria. A sincronia e harmonia entre esses quatro corpos celestiais são plenas. Gemma Thompson dedilha a guitarra na velocidade da luz, gritando melodias engrossadas por pancadas marciais que partem dos músculos de Fay Milton. O baixo, que você nem ouve, mas sabe que está lá, é a amálgama que dá coesão ao som (melhor definição para baixo que já ouvi: "não se nota sua presença, só sua ausência". Razão pela qual bandas como White Stripes não dão liga não só na melodia, mas no coração da gente). As meninas impressionam pela técnica. Guitarra, baixo, bateria e até um eventual piano (comandado por Jehnny) são manejados com perfeição. E é inevitável que o cérebro não vá, ao longo do show das Savages, digitando em sua mente: ensaios. Ensaios. Ensaios. Afinidade. Experiência. Cumplicidade. Anos. Até você se dar conta de que aquilo que se escuta não guarda sentido algum com o histórico da banda. Formada o ano passado. Meninas novinhas. Um só disco. Gravado há menos de doze meses. Gênero musical: pós-punk. Mas como, punk? Punk é improviso, ausência de virtuosismo, acordes básicos, simples, arranhados e espancados de um jeito que o som sai sujo. E genial. Então, como quatro garotas conseguem fazer um punk ultragenial, imundo, mas com mãozinhas esterelizadas, tocando...absurdamente bem?          

Talvez uma explicação razoável esteja mais no prefixo "pós" do que no vocábulo "punk". Savages não soa mesmo como uma banda muito aparentada de Ramones, Clash. E também não vi lá muita semelhança com ingleses que vieram logo depois: Joy Division (não, Jehnny Beth em nada se parece fisicamente e tampouco imita os gestos espasmódicos de Ian Curtis no palco) e Gang of Four. Mas dá bem para enxergar Pixies. Nirvana (principalmente na fúria davegrohliana de Fay Milton). Siouxsie nas cordas vocais de Jehnny. Queens Of The Stone Age na guitarra ágil e nervosa de Josh Homme. Digo, Gemma Thompson. E Killing Joke na potência de canções que, de tão cheias de camadas, pesariam uma tonaleda se, por uma mágica sobrenatural, as ondas sonoras se solidificassem. Daí porque nunca antes o nome de uma banda soou tão apropriado. Savages. Quatro bárbaras, em todos os sentidos. E você tem certeza de que algo extremamente especial está acontecendo metros a frente quando percebe o assombro e a reação de um público acidental: seguranças. Leões de chácara contratados para ficar de olho em fãs mal comportados. Mas que deram as costas para corredores e passagens desvigiadas, preferindo grudar bíceps e panças nos gradeados, corpanzis debruçados em direção ao palco, séria atenção nos olhares desconcertados. O show começou e terminou em um só ritmo: de avalanche. Sem intervalos, sem bis. Exceção para a introdução, feita por Jehnny, antes da música que implodiu o HMV Forum. Fuckers. Vale como conselho de vida. "Antes de você pensar que está ficando fora de si, de achar que você está errado, e que o problema é com você, pare. Primeiro, olhe ao seu redor. E então tenha certeza de que você não está cercado por babacas". Fim do show. Luzes acesas. E eram centenas de pessoas que não conseguiam parar de aplaudir. E eu não conseguia ficar mais de pé do que já estava. Se eu pudesse dobrar minha altura naquele instante, dobraria. Não adiantaria gritar. Todo mundo gritava. Ninguém iria me ouvir. Pelo menos podiam me ver chorar. E se eu estava arrepiada não era devido ao outono no hemisfério norte. Era corrente elétrica, superestímulo de audição e visão. Onde é a bilheteria? Faço questão de pagar de novo o preço do ingresso. Já desperdicei grana mais alta em troca de apresentações de sétima categoria. E eu me sentia em dívida com as quatro selvagens. Lá adiante, as meninas arfavam ao mesmo tempo em que sorriam. Os olhos de gata de Jehnny Beth derramavam gratidão pelo reconhecimento. Como se as palmas e urros validassem e imprimissem um selo de qualidade a tudo que fizera nas últimas duas horas. Ah, a pureza e a insegurança dos iniciantes. Vai passar. Estamos só no primeiro disco. E já dá para morrer de saudades do futuro.
Os aplausos só arrefecem quando as meninas começam a deixar o palco. Jehnny Beth é a última de uma filinha indiana. Mas, de repente, para. Uma lembrança, retorno de uns passos até o microfone. O corpinho frágil se dobra, o braço direito se estica com graça até o chão. Até subir novamente, dedinhos suspendendo, como ganchos, as tiras de um par, em PVC preto reluzente, de delicados scarpins. Brutal e chique, Jehnny Beth marca, com garras de pantera, para sempre a nossa memória. E a história do rock. 

Thursday, October 31, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXII


"Portrait of Man with Hat", 1475, Jean Fouquet, e o cantor Tom Waits. 

Tuesday, September 17, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXXI


"Head of the Swooning Virgin", Federico Barocci, 1568, e a modelo e cantora Kate Moss.

Thursday, September 05, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXX


Face (sketch), Picasso, e a cantora Lana Del Rey.

Sunday, September 01, 2013

Reverie. A Palavra Mais Linda De Todos Os Idiomas.

Por que?
 
Porque só ela tem significados que remetem a delirantes sonhos bons...e música.
 
 
Reverie:
 
1.  absentminded dreaming while awake [syn: {reverie}, {revery}, {daydream}, {daydreaming}, {oneirism}, {air castle}, {castle in the air}, {castle in Spain}] (WordNet)
 
2. a state of being pleasantly lost in one’s thoughts; a daydream:a knock on the door broke her reverie [mass noun]:I slipped into reverie (Oxford Dictionary)
 
3.  Music an instrumental piece suggesting a dreamy or musing state: his own compositions can move from impressionist reveries to an orchestral chordal approach (Oxford Dictionary)
 
4. archaic a fanciful or impractical idea or theory: he defended and explained all the reveries of astrology (Oxford Dictionary)
 
Origin: early 17th century: from obsolete French resverie, from Old French reverie 'rejoicing, revelry', from rever 'be delirious', of unknown ultimate origin (Oxford Dictionary)
 
"Thought is the labor of the intellect, reverie it's pleasure". (Victor Hugo)
 
"Sit in reverie and watch the changing color of the waves that break upon the idle seashore of the mind." (Henry Wadsworth Longfellow)
 
"His heart danced upon her movements like a cork upon a tide. He heard what her eyes said to him from beneath their cowl and knew that in some dim past, whether in life or revery, he had heard their tale before. He saw her urge her vanities, her fine dress and sash and long black stockings, and knew that he had yielded to them a thousand times. Yet a voice within him spoke above the noise of his dancing heart, asking him would he take her gift to which he had only to stretch out his hand." (James Joice, "A Portrait Of The Artist As A Young Man") 

Saturday, August 17, 2013

Quando a Arte Vira Rock, Parte CLXXIX


"Leon Spilliaert", Self Portrait, 1903, e David Bowie.

Monday, July 29, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXVIII

 
"Woman With Flowery Hat" (ceramic), Picasso, 1964 e Baria Qureshi, ex-guitarrista e ex-tecladista do The XX.

Saturday, July 27, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXVII


"Madonna", Edvard Munch, e Nico, vocalista do Velvet Underground.

Tuesday, July 16, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXVI




"Manuelita With Intense Gaze", Nicolai Fechin, 1930, e a cantora Joan Jett.

Tuesday, July 09, 2013

The Song is You

"The universe just vanished out of sight/And all the stars collapsed behind the pitch black night/And I can barely see your face in front of mine/But it is knowing you are there that makes me fine." ("Warmer Climate", Snow Patrol)

"Separação", Edvard Munch.

 
Naquela época, um pedregulho encravado em mim, não um coração. Só pode ser isso. Faz dois anos, acho. Comprei em Londres, livraria grande na Charing Cross. Prateleira dos livros recomendados pela casa. Um casal adolescente em preto-e-branco (nunca uma capa foi tão dissonante da história por trás dela), elogio do New York Times, música no resumo da trama. E um nome superatraente. "The Song is You". Levei. Desembarcou na minha estante, entrou na fila das leituras futuras. Por um ano, até eu me lembrar. Testado. Três páginas. Raso, sentimental, chato. E nunca uma impressão minha foi tão dissonante da verdade. Minha maior injustiça literária. Mais um ano, até semana passada. Separando o acervo para doação. Soprei a poeira, abri. Primeira página, até que não parece tão ruim quanto antes. Capítulo introdutório, lido de pé. Puxa vida. É lindo.
 
Arthur Phillips. Quem? É, eu não tinha o mínimo conhecimento sobre a existência dessa criatura. Americano, 44 anos, boa-pinta até. Quatro ou cinco livros publicados, autor elogiado. "One of the best writers in America", etiqueta dada pelo Washington Post piscando na testa do moço. Para mim, ilustre desconhecido até então. Duzentas e cinquenta páginas depois...dá licença, Post, posso passar um branquinho por cima do "America" e botar um "in the world" no lugar? Ou ao menos um "in my world"?

Você já leu essa história, não? Homem, quarenta e poucos anos, apaixonado por rock e música pop. Vida sentimental devastada, vida profissional no piloto automático. É, de novo. Dessa vez, ele atende por Julian Donahue, morando em Nova York, diretor de comerciais para a TV bem estabilizado no ramo. Só que Arthur Phillips não é um escritor como Nick Hornby ou David Nicholls, pai do sofrido "One Day". Existe um humor zombeteiro que dá ritmo e impulsiona os livros dos ingleses, mesmo não sendo tão constante na trama de "One Day" como nas histórias de Nick Hornby. O americano fez diferente. Em "The Song is You", o humor é pontual, sarcástico, politicamente incorreto, concentrado e cuspido por um único personagem, o ácido, narcisista e acomodado irmão de Julian. "Você sempre viveu à sombra do papai", diz Aidan para Julian, "não me admira que sua única parte boa seja a perna que tomou sol". Ou ainda fulminando, quando perguntado por um Julian criança e duvidoso quanto à correção da teoria de Charles Darwin: "Se Lamark estivesse certo, nós dois seríamos pernetas". O pai dos rapazes, ex-soldado, teve uma perna amputada após ferido em combate.

O autor não dá a Julian o direito de ser engraçado, leve. É um homem que sustenta nos ombros as lembranças dolorosas de um filhinho morto. E Phillips não alivia: passa um bisturi de cima a baixo na alma do rapaz, escancara e analisa toda fragilidade, culpa, medo do futuro alojados em um Julian resignado a envelhecer na solidão, acalentado por música e por seus fantasmas. Até a aparição de Cait.

Noite de inverno, um pequeno clube no Brooklyn. Semipocilga onde se apresentam bandas de rock locais. Julian está lá não exatamente pelo som, mas para afanar um pouco de papel higiênico (!) no banheiro.  É ao acaso então que é surpreendido pelo show da iniciante Cait O'Dwyer's, vocalista, compositora e líder de uma banda que leva seu nome. Ruivinha, tatuada, "an Irish angel trapped in the body of your best dreams", como mais tarde um DJ a definiria. Julian detecta o talento potencial da menina, seus modelos (Nico, Siouxsie, PJ Harvey...), ao mesmo tempo em que identifica a necessidade de pequenos ajustes em excessos que podem emperrar, ou enterrar, uma carreira promissora.  Além do papel, sai do clube levando para casa uma demo com músicas de Cait.

O encantamento gradual de Julian pela voz e melodias da cantora, que aos poucos se transfere para a própria moça, é onde reside toda a poesia do livro. Arthur Phillips é um mestre das metáforas, dotado de uma habilidade surpreendente para tecer e posicionar as palavras em frases impregnadas de lirismo. Qualquer apaixonado por música sabe o que é ser fisgado pela canção certa, na hora precisa, em um instante muitas vezes rotineiro e banal. É o que rola com Julian, ao ser abatido pela força de uma das faixas de Cait baixadas para o iPod: "the disembodied voice filters all feeling and also causes it. The dense terrine of feeling in Julian - regret, hope, sorrow, faltering ambition, longing - startles him. It could not be produced in such concentration and quantity without the voice, and so, after this moment on the train platform, he comes to crave because it reveals the feelings he could not find in silence".

Arthur Phillips toma a cautela em não pintar Julian como stalker patético, tiozinho assanhado. Criou um Julian constrangido pela própria autocrítica, pelo desconforto em ser o rosto envelhecido entre uma plateia de fãs vinte anos mais nova ("and he went home  - eighteen years old and eighty years old in flickering alternation - and put on her demo"), pela esperança da redenção através de uma mulher idealizada. Mesmo porque, Julian não é um lunático. Cait o nota. Durante mais um show no clube, por mera diversão, ele rascunha caricaturas, conselhos e críticas a Cait, nas superfícies de papelão de alguns descansa-copos ("Indulge no one's taste but your own". "Hate us without trepidation"....). O barman recolhe as rodelinhas, que caem nas mãos da cantora. É o que basta para despertar a curiosidade da moça, surpresa por finalmente ser confrontada, em meio à massa crescente de bajuladores, por alguém aparentemente sincero. Cait investiga, descobre Julian.
 
O romance engrena. E a nossa paz termina. Porque não existe contato físico. De início, a reação de Cait é sutil. As letras das músicas que escreve serão o subterfúgio para se declarar a Julian, subliminarmente. Ele saca. E a vida ganha sentido, uma razão para não sucumbir aos destroços do passado. Os dois não se conhecem pessoalmente, não se encontram. Mas, de forma indizível, sentem o conforto e o consolo da presença incorpórea um do outro. Com o tempo, algumas mensagens e telefonemas são trocados. E aí, sim, vão crescendo a ansiedade, a apreensão, a insegurança geradas pela expectativa de um encontro que, se real, pode vir a ser o início de um fim - que não teve começo. E não é apenas Julian que se sente intimidado pela menina que, dia-a-dia, vai conquistando o mundo: "...London's fearsomely bored critics purred and sighed, offered their thummies to her for rubbing". Cait é jovem, incerta quanto ao seu talento, temerosa de não ter mais nada a oferecer a Julian além de sua música. O almejado sucesso a paralisa quase na mesma medida em que, sobre um palco e com uma multidão derramada a seus pés, a fascina: "she looked out over the sea of faces and bodies and did not distinguish between them, or wish to, any more than an explorer of distant lands would care to distinguish among the waves that carried him through the velvet night to the next spiced port".

Uma boa e uma má notícia sobre "The Song Is You". Primeiro, a boa. "A Canção é Você" existe, o livro foi lançado aqui pela editora José Olympio (com uma capa tão nada a ver quanto à da edição inglesa. Provável tentativa, acho eu, de coaptar os leitores do Nicholas Sparks. Tiro na direção errada). A má: a tradução é de chorar. Faria corar de vergonha o Google Translate, caso ele tivesse bochechas para tanto. Abri ao acaso um exemplar, em uma livraria perto de casa, e li uma frase qualquer. O que no original é "if you're ever lucky enough to see one of the truly great ones perform, you don't walk out the door the same man that walked in", virou "se você tiver sorte suficiente para ver um dos grandes tocar, não saia pela porta por onde o mesmo homem entrou."

Inglês ou português, poucas são as resenhas sobre o livro. O Google não me mostrou muitas. A do New York Times é bem entusiasmada; conta bastante, mas sem estragar o prazer de ler. Por estas praças, só encontrei texto do Zeca Camargo. Que, pelo jeito, ficou tão abobado quanto eu, principalmente com estilo elegante da escrita.

Só que Arthur Phillips não é só um artesão que maneja vocábulos como se fossem fios de ouro. Ele sabe injetar clima ao romance. Suspense. Ânsia pelo próximo parágrafo. O safado tem você na mão. Adia, te enrola, protela, se faz de bobo e finge desconhecer o desfecho que você, a certo ponto, está mentalmente implorando para que seja revelado. E a tortura se prolonga não só até as últimas páginas, não apenas até a última folha....mas praticamente até a última frase! Você carrega o livro na bolsa ou embaixo do braço. Fila da padaria, elevador, sala de espera de médico. Não dá para esperar chegar em casa e resgatar na estante. Você tem que ler....agora. E quando você começa a torcer para que um congestionamento no trânsito, na volta do trabalho, te presenteie com uns minutos de leitura dentro do carro...é porque o responsável por tudo isso tem seus méritos.

"The best moments in reading are when you come across something - a thought, a feeling, a way of looking at things - which you had thought special and particular to you. And now, here it is, set down by someone else, a person you have never met, someone even who is long dead. And it is as if a hand has come out, and taken yours” (Alan Bennet, escritor).
Mr. Phillips, prazer em conhecê-lo. Desculpa aí o mau jeito, a inicial recepção fria do seu livro, tão lindo, na minha humilde residência. Foi mal. Seus outros livros terão a atenção merecida, acredite. De hoje em diante, fica a promessa. Tamo junto.

Friday, June 28, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXV


"Man With Folded Hands", 1944, Lucian Freud, e Stephen Morris, baterista do Joy Division e New Order. 

Thursday, May 30, 2013

Facebook e Instagram

Eu sei, sou marcha lenta. Bloguinho parado, já não tenho muita ideia sobre o que escrever. Não sai nada. Um dia vai, espero. Mas olha, enquanto isso, se compensar, descobri umas páginas incríveis de pintura e street art no Facebook. Artistas obscuros ou pouco conhecidos que fizeram e fazem muito bonito. Cada imagem incrível, que aquece o coração. Para quem interessar, costumo compartilhar minhas preferidas. Pode ir lá no Face, não precisa ser meu amigo para ver. E peguei mania de fotografar grafites da cidade com o Instagram. Os Ramones aí de cima estão na Vila Madalena. E tem muita coisa bacana que ando vendo na zona leste, onde trabalho. Beijos. Ana.

Saturday, May 11, 2013

Quando a Arte vira Rock, Parte CLXXIV


"Waves of Love", Edvard Munch, e a cantora PJ Harvey.
 
(Não foi inspiração para a capa do disco. O quadro é outro. Comentei aqui).