Wednesday, January 13, 2016

Starman

"Commencing countdown, engines on. Check ingnition. And may God's love be with you. Ten, nine, eight, seven, six, five, four, three, two, one. Liftoff." ("Space Oddity", David Bowie) 

8 de janeiro de 1947. Ele caiu na Terra. Despencou precisamente ao sul de Londres, Inglaterra, um bairro humilde. Sua missão no planeta azul começava. A metamorfose em Homo sapiens, essa espécie frágil, tão antiquada e atrasada, não foi nada difícil. O plano era percorrer o ciclo completo. Embrião, feto, bebê. Células programadas para assumir o fenótipo de um menino, depois homem e aí velho. Alternativa não imutável. Se o tédio viesse, causando aquela ebulição genética à qual já se acostumara, tudo sob controle. Poderia escolher aquele outro sexo. Ou sexo nenhum. E voltaria a ser quem ele sempre fora. Revelaria sua identidade. Sem medo de alarde, captura, experimentos científicos, mutilações. Porque, quando este dia chegasse, as mentes dos terráqueos já estariam irremediavelmente dominadas. 
E assim foi a conquista. 
Para viciar ouvidos humanos dispersos por cinco continentes, o som precisava ser intenso, irresistível, um feitiço. Então ele, químico, preparou fórmulas para as melhores canções. Preferiu de início não causar enorme estranhamento. Apenas encantamento. Obteve sucesso. Atenções e cérebros se renderam ao poder de suas melodias. Aí ele ousou. O disfarce já não era necessário. DNA recombinado, ele surgiu como nascera. A imagem que sempre fora, e que sempre seria, caso ainda morasse em um infinito lá longe, onde o tempo nunca existiria. 
Para ele, a audição não era o bastante. Queria o monopólio também da visão. Explodiu em cores, texturas, ondas. Vestiu tecidos que gritavam cada matiz do arco-íris. Provocou ao ajustá-los à sua delgada silhueta sideral - ou ao usá-los em ângulos inusitados. Cabelo no tom de Marte. Mais tarde, outra mudança. Desbotou, apagou-se. Preto e branco. Tão branco que a ausência de cor foi um de seus nomes. Engrandecido por um título de nobreza. Vitória novamente. 
Seu estilo, audácia, sua liberdade foram absorvidos, mimetizados, reproduzidos pelos habitantes do planeta feito de água, mas curiosamente batizado de Terra. Não foi o bastante. Ele queria mais. Não só se comunicar pela língua da Música. Havia o desejo de se sentir humano. Fingir ser um, mas sem ofuscar sua personalidade. Então ele interpretou. Viveu a vida de um presidiário, e a de um cientista. Viveu uma vida sem vida: um vampiro. E seu melhor papel foi ser ele próprio, autêntico. Sua origem foi uma ficção registrada em rolos de celuloide. The Man Who Fell To Earth.  
Missão dada, missão cumprida. Em um pequeno ponto da via-láctea, ele hipnotizou neurônios e fincou em corações sua bandeira de conquistador.  Mas o imprevisto sempre acontece. Anos e anos terrestres. Noites e noites e noites estreladas e ele, o lar, pairando no espaço distante. Chamando.
Bateu a saudade. 
Mas...como viajar, como voltar para casa? Afinal, há sessenta e nove anos ele não aterrissara. Caíra. E a nave se fora. 
10 de janeiro de 2016. Ele partiu. Lá de cima, um raio - o raio que o tatuava - brilhou no céu e desceu fulminante, partindo nossos corações. E neles riscando a pergunta: mas por que nos deixar tão cedo? O Universo poderia explicar porque afastou de seus servos o melhor dos senhores? Existe um Deus que forneça a resposta?
Sim.
E a resposta veio cento e vinte e oito anos antes da pergunta. Na caligrafia de um mortal, mas também destinado à imortalidade. Um holandês tão angustiado quanto talentoso - e subestimado. Vincent Van Gogh nunca foi um homem do espaço, mas amava o firmamento em uma noite cheia de luzes. E decifrou, em uma carta endereçada a seu irmão, quais as maneiras de se viajar até as estrelas:

"...the sight of the stars always makes me dream in as simple a way as the black spots on the map, representing towns and villages, make me dream. 
  Why, I say to myself, should the spots of light in the firmament be less accessible to us than the black spots on the map of France.
   Just as we take the train to go to Tarascon or Rouen, we take death to go to a star. What's certainly true in this argument is that while alive, we cannot go to a star, any more than once dead we'd be able to take the train. So it seems to me not impossible that cholera, the stone, consumption, cancer are celestial means of locomotion, just as steamboats, omnibuses and the railway are terrestrial ones.
   To die peacefully of old age would be to go there on foot."

Ele tinha pressa. Urgência em cruzar o espaço na velocidade da luz, polvilhando seu rastro de poeira estelar. Alcançar a sua estrela natal, sua casa. Ele não era Skywalker, jamais se conformaria com pequenos passos. David Bowie, rebel, hero. Eternamente, Starman.   

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