Saturday, November 27, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CLII



"Andre Derain", de Henri Matisse, e Mark Oliver Everett, vocalista do Eels.

Sunday, October 31, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CLI




"Study for Beethoven Frieze", de Gustav Klimt, e Florence Welch, vocalista do Florence & The Machine.

Monday, September 13, 2010

As Meninas-Renda e a Menina-Algodão





Uma princesa. Cabelo loiro lisinho, natural, zero de maquiagem no rostinho de porcelana. Franja jogada de lado escondendo o olho. Lembrava a modelo Kate Moss quando bem novinha. Corpo delicado, bem alta. E a voz transparente, de sereia. Um anjinho assim, em um cabaré de strip-tease? Ela cantava para uma plateia minúscula. E aquele que mais queria vê-la não estava lá. Mas isso eu ainda não sabia. Também não sabia qual era a banda. Descobri dias depois. Uma mistura de Velvet Underground com Cocteau Twins. Ela, a vocalista, única garota entre três meninos. Seu nome, não sei até hoje.
Perfeição? Quase. Não fosse o vestido. Verde escuro, listras pretas horizontais, verticais, envolvendo as mangas. Comprido, descendo até as canelas. Disforme, sem graça. Opaco. Pena, uma menina tão linda embrulhada em um camisolão de tecido grosseiro. Talvez ela não quisesse ofuscar as luzes delicadas que caíam sobre o palco. Ou não interferir nas imagens celestes e nas espirais coloridas que giravam no telão, atrás dela. Merecia um vestido de pérolas, seda ou cetim, a Menina Sem Nome. Mas era algodão. Menina-Algodão.
Depois da última música, ela agradeceu e sumiu. Pessoas foram aparecendo, aparecendo, até preencherem os pedaços vazios da pistinha. E de repente, o Madame JoJo's - casa no Soho londrino, na antiga e revitalizada boca-do-lixo - ficou mais sofisticado. Elas eram três, dançando na frente do palco. Penteados impecáveis, fios de cabelo domados por spray. Cílios empapados com rímel, olhos contornados por lápis escuro, aquele ar de saúde que o blush dá. E todas as três embaladas por renda. Três vestidos elegantes, três cores diferentes. O mesmo material. Renda. A Menina-Renda preta parecia ansiosa. Olhava muito para o palco. Esperando a banda da noite? A Menina-Renda branca sabe que é linda. Cortou o cabelo bem curtinho, sem medo de mostrar as feições de boneca. O vestido é muito justo, parece costurado sobre o corpo. Uma pele alva de renda. A Menina-Renda verde-água, saia rodada, girava sem parar enquanto o DJ tocava Joy Division. Uma bailarina do pintor Degas.
Apagaram as luzes no cabaré. Olhei para baixo, na pista. As Meninas-Renda não estavam mais lá. As luzes se acenderam sobre o palco. Uma guitarra branca e preta estava colada ao vestido de renda champagne. A renda preta parecia se acalmar pelo contato com o baixo. Espremida atrás de teclados, não havia mais espaço para a renda turquesa rodopiar. E uma última menina estava sentada na bateria. Equilibrando um coque-banana! Quatro mocinhas. A banda americana The Like, o show secreto do indiscreto Madame Jojo's.
"Não, não é The Like." "É, sim, ué", falei. "Não....mas não é ela...". No intervalo entre os dois shows, um menino, gorrinho de lã na cabeça, sentou do meu lado. Preocupado. Perguntou se já havia acabado o show do The Like. "Nem começou.", tranquilizei. Ele respirou aliviado. "Ainda bem, cheguei na hora. Só quero ver The Like, estou pouco me lixando para a banda de abertura. Como ela se chama, aliás?". Nem ele conhecia a banda da Menina-Algodão. Pelo menos isso era o que eu pensava. Erro meu. Porque quando as Meninas-Renda ligaram os instrumentos, o moleque apavorou. "Cadê ela!?". "Quem?". Silêncio por uns instantes. "A vocalista do show de abertura...você viu? Era uma loirinha, cabelo nessa altura.". Ele apontou para o próprio omoplata. "É". "Ah....não. Era essa a banda que eu estava louco para ver. Confundi, achei que era The Like.". Ele cruzou os braços na frente do peito, suspirou, esticou as pernas. E ficou triste. Não era para tanto. Afinal, o som rolando no palco era bacana. Rock de garagem com aquelas pitadas bubblegum dos anos 60. Música ensolarada tocada por cinderelas rendadas, vestidas para o baile. O menino não se movia, não esboçava reação. Parecia distante. Sonhando com uma menina que cantava música lunar. "Cuida das minhas coisas enquanto eu vou até o bar?". "Cuido, lógico". As coisas dele se limitavam a uma sacolinha de plástico. Pelo formato quadradinho, havia um vinil dentro. Desleixado o garoto. Desanimado, havia largado o disco no chão. Catei a sacolinha, coloquei com cuidado sobre o estofado. Ele voltou, empurrou o vinil para o chão, se jogou no banco-sofá. Lá na frente as Meninas-Renda faziam bonito: um cover de "Why When Love is Gone?", canção dos Isley Brothers. O menino do gorro de lã olhava com indiferença. O mundinho dele era um reino preto-e-branco, melancólico, trancado para as princesinhas do The Like. Esqueci dele por uns instantes, melhor prestar atenção show, que estava quase no final. Até o momento em que tomei um susto. Ele, sacundindo meu ombro. "Que foi?", virei para o lado. O rosto do garoto, iluminado. "É ela!!". De pé, ao lado dele, a Menina-Algodão, sozinha, olhava na direção do palco. "É, é ela. Vai lá falar com el...". Não precisei terminar. Ele deu um pulo e grudou no vestido verde listrado, cochichando alguma coisa no ouvido da cantora. Ótimo, me concentrei no show, já no bis. Minutos depois, eu me virei. Queria ver se o menino estava progredindo. Mas, ao meu lado, o espaço vazio. O vinil não estava no chão. O menino do gorro de lã havia evaporado. E cadê a Menina-Algodão?

Então eu entendi.

Ah. O amor. Às vezes tão simples, suave, aconchegante.

Como algodão.

Sunday, September 05, 2010

The More You Ignore Me, The Closer I Get

"The more you ignore me/The closer I get/You're wasting your time/I'll be in the bar/With my head on the bar/I am now a central part/Of your mind's landscape/Whether you care or do not."

"Nenê, esse cara é muuuuito famoso?"

Minha prima. Ela que perguntou. E Nenê....bom, Nenê sou eu. Apelido que minha família botou em mim. Porque me registraram como Ana Luisa só para os outros me chamarem. Em casa eu sempre fui Nenê. Até entrar na escola, pra mim, meu nome era Nenê. Não gostei quando descobri que não era. Resultado: até hoje estranho quando me chamam por Ana Luisa. Quando converso comigo e me dou conselhos, é tipo assim: "Nenê, coragem, deixa de ser palerma, vai lá e faz. Você é uma mulher ou um rato?". Anos atrás, eu estava em uma festa junto com uns meninos que foram estagiários na promotoria de Atibaia. Um deles insistia em me tratar por "senhora". Porque queria, não porque eu tivesse pedido, lógico. Aí apareceu um moleque que tinha morado na rua da casa da minha avó, onde cresci. Foi conversar com a gente. Então, de um lado um me chamava de senhora - e o outro de Nenê. Nem sei qual dos dois queimava mais o meu filme. Até que alguém falou o meu nome. "Ana Luisa? Nenê, você se chama Ana Luisa?". "Chamo, ué. Você pensava que era o quê? Neide?". "Não. Lá na rua sempre comentaram que seu nome era Almerinda".

A minha prima mora, estuda e trabalha em Londres desde 2004. Ela é filha do irmão da minha mãe. Um dia eu perguntei para o meu tio que tipo de música ele costumava ouvir. "Nenhum". "Como, nenhum? Você não gosta?". "Não, de nada. Culpa da vovó, que me fazia ouvir uma praga chamada Vicente Celestino. Odeio música por causa dele.". Minha prima não chega a detestar música como o pai. Ela simplesmente não liga. Nem o namorado, inglês e surfista (sim, existe essa bizarra categoria. Eles fingem que surfam naquelas praias tristes e gélidas. E lamentam porque não são australianos), conseguiu empolgá-la a ouvir bandas novas e bacanas. Seis anos em Londres, e foi a apenas um show. É: UM. E justo na cidade em que rola um número absurdo e incontável de shows por ano, para todos os gostos. Não é falta de grana, é falta de vontade. Anos atrás, andando em Camden, na porta de um clube alguém deu para ela o ingresso do tal show. Grátis. Só por isso ela entrou. E pior, show do Raconteurs. Aquela banda do chato do Jack White. Era melhor ter ficado no placar zero.

Na verdade, o lance da minha prima é arquitetura, decoração. É isso o que ela estuda. E adora. Ela me explicou: hoje o quente em Londres é a especialização em design de interiores. Londres é uma metrópole impedida de crescer. Cidade histórica, tombada. Não tem lugar para novas construções. As já existentes são caríssimas. Ingleses se endividam pelo resto da vida para pagar a hipoteca da casa, que corresponde mais ou menos ao nosso financiamento. E a cada ano a população aumenta. Então, se não dá para construir, a solução é dividir o que já foi construído. Criar, desenvolver, implantar ideias originais e harmoniosas para bem aproveitar espaços. Cool. Todo ano, quem curte rock espera ansiosamente pelos dias de festivais britânicos. Glastonbury, Reading. Minha prima, ao contrário, só se anima para o fim-de-semana em que rola o Open House. Sempre no terceiro final-de-semana de setembro. É um evento pouco divulgado, grátis, que abre as portas de imóveis históricos, edifícios comerciais, prédios públicos e até de casas particulares para qualquer pessoa que quiser conhecer seu interior. Vale a pena para quem é interessado em arquitetura ou também para simples curiosos, já que muitos desses locais não autorizam a entrada de público no restante do ano. Ou até autorizam, mas se você agendar data e pagar. É o caso da sede financeira do Lloyds Bank (foto aí em cima). O prédio do Lloyds foi construído entre 1978 e 1986. É um exemplo de arquitetura high-tech. Serviu de cenário para Code 46, ficção científica inglesa de 2003, um dos meus filmes preferidos. O responsável pelo projeto é Richard Rogers, um dos arquitetos que projetou o Centre Pompidou em Paris. Tá velhinho, mas ainda na ativa. Ele que está projetando a terceira torre (!) do novo....World Trade Center (os americanos devem confiar cegamente no ditado do raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. Eu, hein). O Lloyds foi um marco na arquitetura moderna. É chamado também de "Edifício pelo Avesso". Nas construções comuns, fiação, engrenagens, tubulação, escadas e elevadores são embutidos, escondidos por concreto dentro de corredores, paredes, tetos. No Lloyds eles ficam expostos do lado de fora do prédio, que é todo envidraçado. Então, cada parafusinho, roldana, encanamento, aparelho de ar condicionado foi cuidadosamente projetado por um arquiteto da equipe do cara. Um trabalho cão. Dizem que o Lloyds Building é tão detalhado quanto uma catedral gótica. Daí o outro apelido dele: Catedral Mecânica. Lindo.
Almocei com a minha prima no meu último dia em Londres. Depois a gente foi passear no Camden Market, mercado de roupas e quinquilharias para turista que hoje ocupa o espaço reformado de um antigo hospital para cavalos. É um labirinto de outlets. No meio, fica a sala da Proud Gallery. É lá que está rolando, até dia 12 desse mês, uma exposição de fotografias. "Six Shooters". Fotos de artistas tiradas por seis fotógrafos britânicos especializados em pop e rock. Minha prima quis ver. Para me agradar, provavelmente. Então, à medida que a gente ia andando, ela me perguntava quem eram as pessoas fotografadas. "Brian Jones? Queens of The Stone Age? Cat...o quê....Cat Power, isso é nome?". Até que paramos na frente de uma foto mostrando um cara, que ela reconheceu. E foi aí que a minha prima quis saber se ele era muuuito famoso. "É, ele é bem famoso". "Tá, mas ele é mais famoso do que o Axl Rose?". Minha prima só conhece as bandas de rock muito grandes. U2, Pearl Jam, Guns and Roses. Então, para ela, para ser famoso, tem que ser famoso nesse nível. "Não sei. Talvez o mais certo seja dizer que ele é muito idolatrado. Não por mim, embora eu reconheça a importância do sujeito.". "Ah tá. Eu só perguntei porque teve uma noite em que ele estava lá no pub". Minha prima é bartender e garçonete em um pub. Entra cedo, sai de madrugada. Adora. Perguntei rindo: "Cantando?". "Não, estava lá sentado. Vendo um outro cara cantar. Era a noite de folk". A crise econômica do ano retrasado bateu forte na Inglaterra. Lá, não foi uma marolinha, e sim um maremoto. Com o povo passando apertos, obviamente gastos com diversão foram reduzidos ou cortados. E beber é lazer. Inúmeros pubs fecharam as portas. Alguns sobreviveram. Os que sacaram que, além de álcool, era necessário algo mais para segurar a clientela. Nasceram então os superpubs: bares que além de cerveja servem também refeições completas, não apenas porções, e no fim da noite abrem espaço para festas - e pequenos shows. É o caso do pub da minha prima, que organiza noites temáticas: folk, hip hop, discotecagem anos 80, etc. "E você reconheceu o cara?", eu quis saber. "Eu não. É que o pessoal que trabalha comigo ficou agitado - você viu quem tá aí? você viu quem tá aí? - só por isso eu soube que ele estava lá. Não fosse por isso eu nem teria notado. Teve uma vez em que um garoto do staff pagou um tremendo mico. Ele ficou um tempão xavecando uma menina bonita. Perguntou o que ela fazia, ela disse ser atriz. Então ele soltou um talvez eu já tenha te visto por aí. E ela: provavelmente. Depois que a moça saiu, eu fiz o favor de explicar pra ele que não só ela era atriz como ainda estava concorrendo ao Oscar. Era a Carey Mulligan, hehe". A gente riu. Apontei para o cara da foto, voltando ao assunto. "E você foi falar com ele?". "Não, né! Nem conheço as músicas dele. Que música ele toca? E eu estava muito ocupada, cheia de coisa para fazer. Então um amigo meu que foi servir o cara. Só uma hora eu passei e dei uma olhada para ver como era a cara dele. A mesma aí da foto, com esse cabelo.". Eu ri muito. "Ele não toca nada, só canta. Cantava em uma banda dos anos 80 que é cultuada principalmente por gente um pouco mais velha do que nós. Aliás, eu sei de no mínimo uns vinte negos que venderiam a própria mãe para traficantes de mulheres só para ter estado no seu lugar". Ela achou engraçado e fez cara de "pra mim, tanto faz", levantando os ombros. Nisso, já era hora dela ir para o pub. Eu a acompanhei até lá, a gente se despediu na porta. Fui pegar o metrô para depois ir ao aeroporto. Lembrei de "The More You Ignore Me, The Closer I Get", ri. Mais tarde, com um computador, procurei a letra dessa música. Ri mais ainda. E não é que encaixa direitinho? Fucei também no site do pub da minha prima. Tem lá uma galeria de fotos. Imagens dos moleques do Snow Patrol e do Foals, discotecando. E minha prima nem falou nada. Lógico, ela não faz a mínima ideia de quem sejam. Incrível como essas coisas acontecem justamente com quem não dá muita bola para elas. Fiquei pensando nos vários outros famosos que já devem ter passado por esse pub. Sem minha prima nem se ligar. Ah, o dono quer que ela seja gerente. Confia nela, ela trabalha lá há anos. Ela vai recusar, com dor no coração. Porque pretende começar estágio em escritório de arquitetura, limitar o pub aos finais-semana. Tá certa, minha priminha corajosa que virou gente grande em Londres.
Se você estiver - ou for - para Londres, quiser tentar a sorte e quem sabe encontrar o célebre famoso da foto, tá aqui o pub.
Se for ao pub, por favor, diga para a Rosana que a Nenê mandou um beijão. Rosana é o nome da minha prima. A menina que um dia ignorou e esnobou uma lenda viva chamada Morrissey.

Saturday, August 28, 2010

Fui até Londres para ver Black Angels

Porque Black Angels é bacana, Black Angels é legal. Banda honesta, gente bonita. Veja só a foto. Black Angels é supimpa. Ô banda boa essa, Black Angels. Viva o Black Angels!
Então, semana retrasada fui até Londres. Fazer o quê? Ver Black Angels, claro. Black Angels. Repetindo: fui ver show dos Black Angels em Londres.

Cof, cof. Ham. Só que....um dia bem disse Carlos Drummond de Andrade: no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha um show do Mark Lanegan, tinha um show do Mark Lanegan no meio do caminho. Essas coincidências curiosas e inesperadas da vida. O aguardadíssimo show do Black Angels estava marcado para o último dia 26. Lanegan, dia 18. Por acaso eu chegaria em Londres no dia 17. Para ter uma semana de preparação psicológica para ver quem? Black Angels, ué, quem mais? Também por acaso eu não teria compromissos na cidade, na noite do dia 18. Custava dar uma passada no Lanegan? Não, né. E já que horas antes do show eu estava em uma livraria, para comprar esse livro para mim, por que não comprar também um para ele? E depois do show pedir para alguém entregar. Não eu, óbvio.

E lá fui eu então para o lugar do show. Já falei aqui da Union Chapel, a igreja mais cool do mundo, que fica no norte de Londres. É anglicana, construída no século XIX, era vitoriana, estilo gótico. Hoje, a Union Chapel é uma casa para shows de música. Incluindo rock. E continua a ser igreja! Com casamentos, batizados, velórios, etc.. No site da UC, a gente acha tanto a programação dos shows como o horário das missas. Adornada por vitrais e arcos, pé direito nas alturas, a igreja é absurdamente linda. Acústica perfeita. Parece até que foi projetada especialmente para o vozeirão do Lanegan.

Sentei no banco da segunda fila. Os bancos da plateia são os próprios bancos usados pelos fiéis para rezar. Lanegão, como sempre, não decepcionou. O bacana desses shows semi-acústicos é que eles exigem muito mais do Mark. Não tem uma maçaroca de sons por trás, como em apresentações com banda completa, para encobrir o vocal, disfarçar falhas, errinhos. Então ele é obrigado a modular a voz, a dar uma dose de interpretação para cada música, a acertar o passo com a guitarra do Dave Rosser. Mas ele honrou aquelas paredes seculares de pedra, tornando o ambiente ainda mais etéreo e sagrado. E de quebra ainda presenteou os fãs do grunge com umas três músicas do Screaming Trees.
Fim do show. Pessoas levantando e saindo da igreja. Olhei para trás. Na quarta fila, uma cara conhecida. Ora, ora. Isobel Campbell. Entendi então porque o Lanegan, no meio do show, agradeceu a presença de uma plateia especial. Acabou de sair o terceiro disco que o Mark gravou com a escocesa Isobel. Músicas dela, os dois cantando. Engraçado. Ninguém reparou que era ela lá. Não que as pessoas ficassem olhando, cochichando e não se aproximassem. Não era isso. Dava para ver que a cantora não estava sendo reconhecida. Ela é mais alta do que eu imaginava - e menos gorda do que eu pensava. Dona de um cabelo loiro comprido e brilhante tão, mas tão bonito....que é feio, he. Porque não parece de verdade. Lembra aquelas cabeleiras criadas por computação gráfica, melhorando os cabelos reais das atrizes, nos comerciais de shampoo L'Oreal. Um cabelo de pixels, não de queratina. Ah, isso sem falar do bofe-acessório que a acompanhava. Espera, pára tudo um minuto! Aqui vai um alerta para você, indie nerd de óculos, papete, barbudo e bolsa a tiracolo, que sempre teve a Isobel como sua garota nerd ideal. Você, que sempre pensou que Isobelzinha era como a menina fofa da sua sala da PUC. Aquela que não se misturava com os playboys nem com os fortões metidos do time de basquete. Aquela gracinha que olharia para um...feio apagadinho. Como você. Sorry explodir seu sonho mais lindo. Mas não é ela. Quem tá pegando a Isobel é um metrossexual que lembra o marido engomado da Nicole Kidman. Que veste camisa passada, não camiseta desbotada do Sonic Youth. Pinta de executivo de gravadora. Pronto, ilusão desfeita. Pode arranjar outra musa, tá.
Voltando ao Lanegan. Bom, enquanto as pessoas saíam, eu continuei sentada. Olhando para a saída ao lado do palco. Ano passado, na noite dessa foto, ele saiu de lá, da porta atrás da gente. Uma funcionária de igreja montava guarda no lugar. Isobel foi falar com ela. Aí sim, alguém finalmente se ligou e a reconheceu. "Ai, como você é bonita! Pode entrar!". E nada do Lanegan aparecer. Até que eu ouvi uma voz feminina. Sentada na fila de trás, uma moça loira, de franjinha, faixa amarrada no cabelo. Sorriso aberto. Simpática, perguntou em inglês. "Tá esperando por ele?". "É, estou. Viu a Isobel lá na frente?". "Não, nem reparei. Eu sempre venho ver os shows dele em Londres, já até perdi a conta". "Ah, eu te entendo. Sou brasileira". "Legal! E eu sempre tento falar com ele depois dos shows. " Eu ri. "Que bom. Pensava que a única fã demente era eu". A menina se animou, deslizou do banco de trás, sentou do meu lado. "Meus amigos não gostam das músicas que eu curto. Nem meu marido. Então venho sozinha aos shows dele. Eu moro em Bristol!". Bacana. Terra do trip-hop. Massive Attack, Portishead. Aí apareceu um segurança. Gentilmente pediu que nós saíssemos, para a igreja ser fechada. Fazer o quê, né? Expulsa de uma propriedade do Senhor. Me senti a própria Eva. Aí a inglesa colou em mim. "Escuta, você já vai....assim....embora de vez?". "Humm...por....que?". "Por que se você não tiver nada pra fazer....a gente poderia esperar por ele lá fora, né. Juntas.". Ai. Meu. Deus. Pra quê, hein? Juro que eu estava pensando seriamente em entregar o livro para a tal funcionária, pedir pra ela passar para o Lanegan, ir embora para o hotel. Eu estava sinceramente fazendo força para conter meus impulsos. Mas se sozinha já não tenho muita força de vontade para acionar o simancol e pisar nos meus freios inibitórios....com o respaldo de uma versão minha, made in England,...eu seria praticamente uma perua desgovernada, hehe. Por que essa doida tinha que puxar papo justo comigo? Aí eu me lembrei do Rafael. Já falei dele aqui. Meu melhor amigo nos tempos de Largo São Francisco. Não era uma pessoa muito popular e querida. Aliás, nada popular e querida. Um dia comentei com ele: "Sabe Rafael, todo mundo me pergunta porque uma pessoa boa como eu vive grudada em um traste como você. Nunca sei o que responder". "Simples, Aninha. É atávico. Aprende: cachorro cheira cu de cachorro.". Eu nunca me esqueci dessa frase fina. E ela acendeu como um raio na minha memória quando a Lisa - esse é o nome dela - veio com a proposta de união dos nossos esforços stalkers. Putz, e o pior é que eu me dei (muito) bem com ela. Pudera, foram duas horas conversando sobre nosso assunto preferido. Nunca compreendi tanto o idioma inglês, fiquei espantada comigo. Mas também, se é pra fofocar sobre o Lanegan, eu me viraria até em etrusco.
Então na porta da frente da igreja, a gente começou a vigília. Lisa contou que é atriz de teatro. Com uma curiosidade: ela participou, como figurante, do vídeo de "Revival", música do Soulsavers com vocal do Lanegan. Vendo o vídeo, lá pelos 3min30seg, ela aparece do lado direito da tela. É a loira fanática religiosa que diz "yes", hehe. Funny. "Que legal! E você contou pro Lanegan que apareceu no vídeo?". "Não. Eu sempre fico nervosa na frente dele e esqueço o que tinha programado falar". "Como eu. Com a desvantagem de que eu tenho que pensar em português pra depois traduzir e falar em inglês.". "Mas tem uma coisa que eu quero perguntar pra ele. Se o Soulsavers vai acabar. Porque depois do último show do Soulsavers em Londres eu falei com um dos caras da banda. Ele disse que iria terminar tudo. Fiquei arrasada. Só que meses depois veio a notícia da gravação de um novo CD. Acho então que ele me enganou!". Aí a Lisa teve a ideia. "Bom, a Isobel pelo jeito ainda está lá dentro. Talvez eles estejam no bar da igreja! O bar ainda tá aberto, tem luz nesse corredor da frente. Vamos lá!". Sim, porque a Union Chapel, além de tudo, tem um bar dentro. Inglaterra, eu amo você.
Subimos até o bar. Luz baixa, um casal em uma mesa dando uns amassos nada castos, só gente desconhecida. Lisa comprou uma taça de vinho branco. "A Isobel estava sentada na quarta fila durante o show?" "Estava", eu disse. "Sei. Já tinha ouvido uns rumores de que a quarta fila era para os convidados especiais. Aposto que ainda estão todos dentro da igreja". Outra vez, o segurança. Avisou que o bar fecharia em cinco minutos. Mas que a Lisa poderia continuar a beber lá fora. Voltamos para a rua. Deus me expulsando de novo, que coisa. Podia expulsar também o Lanegan, puxa. Preciso de um Adão, hehe. "Você entendeu o que o segurança disse?". Pergunta bizarra. Porque quem fez foi ela, não eu. "Olha, você não sabe com que alegria, alívio e consolo eu tomo conhecimento de que nem um inglês entende o que outro inglês fala. Valeu, Lisa". "Tá bom, de nada. Mas o que eu quero saber é: ele disse que o bar fecharia "em" cinco minutos ou "por" cinco minutos?". "Em". "Não, não, não. Ele disse POR cinco minutos.". Eu gosto de gente que não se deixa levar pela opinião alheia. "Tá. Por. E por que o bar fecharia "por" cinco minutos?". "Simples! Para rolar uma festa no bar! Para o Lanegan e seus convidados especiais!", explicou uma Lisa com ar triunfante. Foi aí que as minhas sinapses deram um nó. Como assim? Uma festa que duraria....só cinco minutos!? Bem feito. Quem mandou ser desatualizada. Vai ver que é uma nova moda gringa. Não existem aqueles movimentos flash mob, em que uns bocós se reúnem do nada, fazem alguma coisa imbecil - tipo deitar no meio da rua - e logo depois se dispersam e vão embora? Vai ver que inventaram as flash parties e eu não tô sabendo. Meu, que espécie de som rola numa festa de cinco minutos? Meia música do Pink Floyd? Um disco inteiro dos Ramones? Fiquei com vergonha de perguntar para ela, tirar um sarro. Sei lá, não quis parecer rude e - principalmente - caipira. "Certo. Então....a gente espera a festa acabar, ele sair...e dá o bote?". "Não, Ana. Convence o segurança a deixar a gente entrar na festa!". Puta que pariu. Que complexo. Usar meu poder de persuasão em o quê...um minuto....pra pegar a festa bombando no auge do terceiro minuto!? E o que eu falaria para o leão-de-chácara? Quero entrar, é meu direito, não existem penetras na Casa de Deus. Ou o senhor acha que quando os reis magos foram visitar Jesus na manjedoura foram barrados na porta por uma hostess, por não terem nome na lista?
Bom, esperamos do lado de fora. "Sabe, Lisa, eu acho que o Lanegan deveria criar um cartão fidelidade. Para fãs como nós. Tipo cartão de milhagem aérea, tipo o cartão da farmácia Boots". (a Droga Raia dos gringos). "Definitely!". "Porque aí com o cartão fidelidade a gente poderia conseguir descontos nos preços dos ingressos...". "Definitely!". ".....lugares reservados na plateia...". "Definitely!". "....CDs autografados...". "Definitely!". "...ou qualquer outro bônus que o Mark por bem quisesse nos proporcionar, hehe...". "Definitely!!". Eu gosto de gente que se deixa levar pela opinião alheia.

Meia hora depois - ou seis festas depois - nós duas na rua. Na frente do portão que levava ao bar. Trancado. Luzes apagadas. "É, você estava certa. Ele tinha dito "em" cinco minutos, não "por"". "É Lisa, mas veja o lado bom: a igreja te doou essa taça de vidro. Prova de que, se estão doando, é porque não estão passando necessidades". "Gosh, que droga. E agora? O que a gente faz? Dá outra volta no quarteirão pra ver se a van da turnê tá parada nos fundos?". A gente já tinha dado umas três voltas pelo quarteirão. Que é comprido. Olhei desolada para a avenida que se estende na frente da igreja. Foi quando eu vi! "Lisa!! Lá, no pub do outro lado da rua!". "Ele!?". "Não! Ela! A Isobel!". "Cadê?". "Sentada naquela mesa, perto da porta do pub!". "Não tô vendo!". "Lá! Aquele troço amarelão!". "Ah, vi! Vamos lá perguntar pra ela onde ele está!". "Perguntar nada, vamos é procurar ele lá dentro!". E nós duas saímos correndo feito aqueles touros enlouquecidos nas festas espanholas de São Firmino, em Pamplona. Para chegar ao pub, havia a avenida para atravessar primeiro. Sendo uma rua de Londres, a mão é invertida. Eu sempre me confundo para atravessar as ruas de lá. Então, para evitar um atropelamento, adotei o método seguro que minha cachorra me ensinou. Quando a Belle quer entrar na varandinha aqui de casa, primeiro ela pára na porta. Olha para a frente. Depois olha para a esquerda. E então para a direita. Por fim, olha para cima. Porque, afinal de contas, nunca se sabe. Só aí que ela sai (após dezesseis anos, ela ainda não se convenceu de que não passam carros no terraço do apartamento). Atravessada a avenida, a gente correu até a porta do pub, tirando finas das costas de uma Isobel sentada na área externa em um banco tipo de piquenique, quase derrubando a mulher. Passamos um pente fino dentro do local. Nada do Lanegan, só uns bêbados tristes. Saímos. "E agora? A gente pergunta para a Isobel? Dá o livro para ela entregar para ele.". "Ah, não. É chato incomodar. E tenho vergonha de perguntar e pedir.". "Vergonha de perguntar? Mas você não é promotora de justiça, hehe?". Pois é. Na verdade, não era vergonha. É que eu não teria nada de bom para falar pra Isobel Campbell. Falar o quê? "Oi, desculpa incomodar. Não quero seu autógrafo, nem foto, acho suas músicas meio chatas. Só compro seus CDs por causa do Lanegan. Então, não quero nada de você, só que me faça o favor de dar pra ele esse livro. A propósito: essa sua saia de vó é pavorosa. Te envelhece, livre-se dela. Marca sua calcinha. Que, pelo tamanho, deve ter pertencido ao enxoval da rainha Vitória. Tchau". Não ia dar certo.

Ideia de jerico minha, ir até o pub. Lógico que o Lanegan não estaria junto da Isobel. Não consigo imaginar ele de camaradagem com aquele coxinha pó-de-arroz acompanhante da cantora. Lanegan não se sentaria na mesma mesa de um cara que come batatinha usando palitos para não engordurar os dedos.

Voltamos então para nosso observatório, na frente da igreja. "Você já reparou que o cabelo dele cresce para os lados?". "Já. Como capacete, né, hehe. E você já notou que ele usa sempre a mesma roupa? Já até dei uma camisa pra ele. Tipo indireta pra ele mudar de figurino. Mas ele continua a usar a mesma calça, camisa e camiseta. Bom, pelo menos ele é um quarentão digno. Não tenta parecer um rapazinho de vinte, como por exemplo o Chris Cornell do Soundgarden, todo recauchutado.". "Qual a idade dele?", quis saber a Lisa. "Humm...quarenta e cinco...ele é de 64, fim do ano.". "Ah, dois anos mais moço do que a minha irmã caçula!". Aí eu fiz essa cara que você está fazendo agora. Tá, eu já tinha reparado que a Lisa era mais velha do que eu. Só que eu dei um desconto. Explico: na Inglaterra, não existem mulheres da minha faixa etária, trinta anos. Elas pulam dos vinte e nove diretamente para os quarenta e cinco anos, no mínimo. A razão? As inglesas bebem muito, muito mesmo. Como uns estivadores de porto. Desde a adolescência. No fim dos vinte anos, o corpo delas já não aguenta mais. Tá embuchado e enrugado. Os homens também bebem, mas são um pouco mais resistentes. Os sinais de envelhecimento aparecem depois dos quarenta. Então, a Inglaterra é um país de velhinhos feios (embora tenha jovens bonitos, sim). Sério, todas as senhoras têm a mesma cara. A da Camilla Parker Bowles. E os maridos delas são cópias do príncipe Charles. Um exército de clones. É estranhíssimo. Por isso, quando olhei para a Lisa pela primeira vez, imaginei que ela tivesse por volta da minha idade, trinta e cinco, já que aparentava uns cinco, dez anos a mais. Ela tem cinquenta. E está muito bem! Estou elogiando. Que exemplo para mim. Cinquenta anos, e ainda tietando. Beleza, ainda tenho quinze anos pela frente.

"Lisa, você já pensou numa coisa? Que se o Lanegan fosse muito mais famoso do que é, a gente nunca teria conseguido chegar perto dele depois dos shows?". "Já". Aí ela disse um troço no qual eu nunca tinha pensado. "Ele conseguiu um equilíbrio perfeito. Porque ele não é muito, muito conhecido. Mas também não é desconhecido. Ele pode andar na rua sem ser perturbado, manter uma base fiel de fãs, viver às custas da própria música, sem luxo, mas com razoável conforto. Enfim, ele conseguiu aquilo que o Kurt Cobain queria desesperadamente no fim da vida, mas não alcançou. Paz.". Interessante. Ela tem razão. Aliás, houve um tempo em que eu achava que, caso Kurt Cobain não tivesse se matado, ele teria acabado com o Nirvana e trabalhado junto com o Lanegan em algum projeto, já que os dois eram muito ligados. Mas depois percebi que não. Acho que se o Kurt e o Layne Staley não tivessem morrido...o morto seria o Lanegan. Porque o Mark, a duras penas, largou as drogas de tão abalado que ficou com a morte dos amigos. Tem uma tatuagem no pulso do Lanegan que talvez seja uma referência a isso. A palavra "surrender" sobre uma data. Cinco de abril de 2005. Exatos onze anos depois da morte do Kurt Cobain, e três da do Staley, vocalista do Alice in Chains. O que será que aconteceu nessa data? Talvez o dia em que Mark Lanegan decidiu sobreviver. E que triste pensar que dois caras talentosos precisaram morrer...para que um outro cara talentoso continuasse vivo.

"Lisa, vou desitir. Ele já deve ter ido embora mesmo. O show acabou faz um tempão. Só tá a gente aqui.". "É, né. Vamos então dar uma última olhada na rua dos fundos. Só por desencargo". Andamos, viramos a esquina. E não é que....tinha uma van parada quase na frente de uma porta da igreja -aberta! Van com a inscrição "tour" no capô! Uma mocinha estava junto à porta. "Ele tá aí dentro?!". Ela riu. "Tá. Sai em cinco minutos.". A gente se abraçou do lado esquerdo da porta. A moça sumiu. Logo depois, finalmente, aparece Mark Lanegan. Virou para direita. Ahá, caiu na rede! Pelo seguinte: o motorista parou a van com as duas rodas esquerdas sobre a calçada (lembrar que é mão inglesa, invertida). Isso porque a rua já é estreita para a passagem de carros. Acontece que a calçada também é estreita. Então o retrovisor esquerdo quase encostou no muro de pedra da igreja. O Lanegan se enfiou nesse corredorzinho formado entre muro e lateral da van, para lá na frente abrir a porta do passageiro (posição invertida nos carros ingleses). Só que a Lisa entrou no corredor logo atrás dele. E eu atrás dela. Quando ele se virou....estava preso, hehe. Muro de um lado, van do outro, retrovisor tapando a passagem. E uma Lisa salivante na frente dele. O único jeito do homem escapar seria entrando na van. Mas para isso ele teria que sair da frente da porta para conseguir abri-la. Impossível. Só se subisse na cabeça da Lisa. Moleza atacar uma presa indefesa em uma rua escura e deserta de Londres. Jack, o Estripador, não teria feito melhor.

Isso, agora quero ver você fugir do mesmo jeito que fez depois do show em São Paulo, saindo correndo pela direita do palco como o Leão da Montanha. No exit. Game over.

Ele olhou para Lisa...."ah....você". Olhou para mim...."e...você?". Pô, precisava me reconhecer tão rápido? Afinal, eu mudei a cor do cabelo, repiquei. Tá quase preto, como a asa da graúna. Bah, nem reparou então. Homem é tudo igual mesmo. Aí eu não resisti. Fiz uma pequena maldade: "É. Agora a gente é amiga!". Arregalei o olho e abri meu sorriso mais psicótico. E ele olhou para nós duas do mesmo jeito que a pelada do chuveiro um dia olhou para Norman Bates. Eu quase me envergonhei. Quase. Logo passou. "Oi. Você tá bem?" "Estou. E você?". Jesus, que educação. Ele perguntando se eu estou bem. Se eu fosse menos tímida - ou menos sóbria - já teria soltado um "agora estou muuuiito melhor!". Entreguei o livro, ele agradeceu. Dentro, na primeira página, escrevi uma dedicatória. Fiz força para assinar com letra bonita. Ana Luisa, your official Brazilian stalker. "Parabéns pelo show. Foi lindo. Como sempre.". Senti uma leve demonstração de comoção depois do meu "as always". Leve - porque ele é um cara de reações extremamente contidas. Mas acho que vi uma breve expressão de felicidade. E aí a Lisa desembestou a contar a tal história do cara do Soulsavers que teria dito que a banda acabaria. O coitado lá, prensado, escutando tudo com atenção. Ela fala pelos cotovelos. Ele praticamente encolhendo a barriga para não encostar na doida. Eu com uma puta vontade de rir. Acho que ela estava mesmo indignada pensando que pudesse ter sido vítima de um trote. No final, quando ela deixou ele falar, a informação: "Olha, eu não tô sabendo nada dessa história da banda acabar". Lisa pareceu satisfeita, estendeu a mão para cumprimentá-lo e ir embora. Dada a distância, dei um mero tchauzinho com os dedos. Agora chega, né. Ficar mais tempo lá seria passar dos limites da chatice. Lentamente comecei a dar marcha-ré para sair daquele aperto tomando o cuidado de não encostar na van empoeirada a barra do meu vestido (er...vestido da minha irmã. Que será clandestinamente devolvido lavado e passado ao cabide do qual foi surrupiado. Não se preocupe, Marina, você nunca vai saber.). E a Lisa desatou a falar de novo, lembrando de algum outro assunto digno de discussão à meia-noite, com um cara visivelmente cansado. Foi quando....peralá, por que ele tá...me olhando....assim? E por que tá...levantando, esticando, desviando o bração - cuidado com a orelha da Lisa! - com essa mão aberta!? Quando eu vi aquela mão gigante suspensa, pairando na altura do meu nariz, esperando minha mão anã....engatei primeira e voltei para onde antes eu estava. Na velocidade da luz. Tá aqui minha mão. Pode levar o braço também. E todo o resto, hehe! Brincadeira, não disse isso. Só encaixei a mão na dele. Ele pegou meus dedos de um jeito que parecia estar me tirando para dançar valsa. Ergueu ainda mais minha mão. E baixou a cabeça, fazendo uma pequena mesura. Tudo com a expressão mais séria do planeta. E eu abri meu sorriso mais "ai, que fofo!". Ei, menino, diz pra mim, vai, com quem você aprendeu esses modos de lorde que viveu no século retrasado? Algum avô? Porque com os irmãos Van Conner ou com o Josh Homme é que não deve ter sido, né? Ow, man, keep on rockin', OK? Por gente como eu. Por você mesmo. Não deixe nunca mais que aquela escuridão que engoliu seus amigos engula você também. No que eu puder ajudar, eu ajudo, prometo. Se eu sempre tiver que te dizer que tudo o que você faz é lindo, eu passo o resto da vida te lembrando, sem problemas. Mas eu preciso de você vivo. Nesse mundo. Então não me deixe aqui sozinha. Combinado?

Fim do cativeiro, a gente libertou o preso, se despediu de vez. Lisa ia pegar um táxi, eu ia para o metrô. Nos abraçamos no meio da rua, ela quase me enforcando, toda feliz. Trocamos emails e ficamos de combinar....outras vezes, hehe. A van passou rápido pela gente. Deu tempo de ver um I-Pad sendo ligado no colo dele, sobre o livro. E cada uma seguiu seu caminho, rindo.
Nem acredito. Já posso espalhar para Deus e o mundo que Mark Lanegan pediu minha mão, na porta de uma igreja! Tudo bem que seria mais legal se ele tivesse pedido a mão nos dois sentidos: literal e figurado. E que tivesse sido na porta da frente, nas escadas. Não na saída de serviço. Mas isso são só detalhes. Detalhes tão pequenos de nós dois, como diria o Rei Roberto. Eles não interferem na poesia do gesto.
E quem diria....e tudo isso aconteceu...por acaso! Afinal, como eu já disse, eu estava em Londres para ver os sensacionais Black Horses!
Horses?
Não, Horses não. Sorry. Angels. Black Angels. Fui até Londres só para ver Black Angels.

Thursday, August 05, 2010

William Faulkner Lectures Get Digitized for the Internet :: Books :: News :: Paste


Horas e horas de aulas de Literatura (e de vida) com o melhor professor! Palestras de Faulkner na Universidade de Virginia! Em áudio e - graças a Deus - texto!


Tuesday, August 03, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CL



"Portrait of Bodhan Filipowski", 1928, de Stanislaw Ignacy Witkiewicz (Witkacy) e o cantor Nick Cave.

Thursday, July 29, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLIX




"Portrait of Aneri", de Wojciech Weiss, 1909, e a cantora Carla Bruni.

Friday, July 23, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLVIII



"Portrait of a Girl", de Maurycy Trebacz, 1895, e a cantora e atriz Scarlett Johansson.

Friday, July 16, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLVII




"Artist's Wife at a Piano", 1921, de Zbigniew Pronaszko, e a cantora Lisa Stansfield.
(tá, não é lá muito rock. Mas pô, tá ficando difícil fazer isso!)

Tuesday, July 13, 2010

Henrietta e Kristen



Pois é, estava eu concentrada no meu nerd e esquizóide passatempo. Procurar gente do rock com (quase) a mesma cara de pinturas ou esculturas. Para engrossar a minha coleçãozinha "Quando a Arte vira Rock" (que nome brega e besta, Jesus. É que quando eu fiz a primeira montagem não sabia que viriam outras. Mas me dói toda vez que escrevo o título, believe me). Aí achei essa mocinha pálida como um vampiro, de olhinhos estreitos, cabelo acobreado, lábios marcados. É a própria Kristen Stewart, a namorada do vampiro, não? A Bella do quadro é uma tal Henrietta Fouquier. O pai dela foi dono do jornal francês Le Figaro. Isso em 1890, quando Teodor Axentowicz pintou a moça. Exatamente cem anos antes do nascimento da Kristen. Esse quadro eu vi em um site de pinturas polonesas. Só que o Teodor, embora tenha morado em Paris e morrido em Kraków, na Polônia, nasceu na cidade romena de Brasov. Que fica no coração da...Transylvania.
Medo.

Saturday, July 10, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLVI




"Portrait of a Young Woman", 1926, de Moise Kisling, e Tracyanne Campbell, vocalista e guitarrista do Camera Obscura.

Friday, June 04, 2010

Bora?

Dia 24 de junho em São Paulo, no Comitê Club, Mark Lanegan! Ingressos aqui.

Sunday, May 16, 2010

Mark Lanegan em Londres, 04 de maio de 2010




Ah, Londres. Terra do Clash, terra da rainha. Eu sempre inventando desculpas para voltar lá. E minha melhor desculpa é, para variar, Mark Lanegan. Em turnê solo e acústica pela Europa desde abril. Novamente, desembarcar no aeroporto de Heathrow e passar pelo guichê da imigração com minha cara de peroba. Depois de oito vezes em Londres, viajando sozinha, por períodos curtos, já tenho medo de que os gringos pensem que sou mula (eu não disse mula, disse mula. Ai). Mas graças a Deus a palavra "rock" tem o poder de abrandar o coração mais duro e desconfiado de qualquer funcionário inglês. Ou funcionária. Dessa vez era uma ruiva com cara de poucos amigos. "Por que você veio para Londres?". "Para ver show de rock". Expressão de súbito interesse. "Ah, é? Qual?". "Mark Lanegan". Expressão de total ignorância. "Quantos dias você vai ficar?". "Uma semana, depois vou para Alemanha.". "Para ver show também?". Pô, aí a mulher já estava perguntando de curiosa. Que diferença faz o que eu iria fazer em Berlim? "Er...sim.". Bom, aquilo que eu tinha vergonha de que ela perguntasse a seguir, ela realmente não perguntou. Afirmou. "E é do mesmo cara!". "E...é..do..mesmo cara". Raio de mulher esperta. Deve ser uma boa agente de imigração. Carimbou meu passaporte rindo. Moral da história: para os britânicos não pareço uma perigosa mula internacional, e sim uma mera stalker internacional. Que bom.

Bom, dois dias depois da minha chegada, o dia do show, 04 de maio. Ingressos esgotados, mas já tinha comprado o meu. Lá fui eu no final da tarde dar uma olhada no clube, o Scala. Enquanto me aproximava, vi uma filinha de cinco pessoas. E aquela mulher já estava lá, segunda da fila! É o seguinte: em todo show londrino do Mark Lanegan, uma inglesa baixinha, cabelo curto e preto, bate cartão. E tenta se postar no melhor lugar na frente do palco (como eu, he). Nós duas já nos sacamos. Quando nos vemos nas filas ou dentro dos clubes, rola um olhar do tipo "mas você de novo, sua desocupada!". A maldita logo me reconheceu. Levantou uma sobrancelha, deu um sorrisinho de boca fechada. Aquela cara de "pois é, queridinha. Chegou tarde dessa vez". Lembrei da Ana Cristina. É que aos quatro, cinco anos de idade, eu frequentava a escolinha Patuá, perto da casa da minha avó. A Ana Cristina era minha coleguinha. Uma japonesinha miúda, com cara de brava. Ela usava, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, um único tipo de calçado. Tamancos. Tamancos de madeira, como uma portuguesa (!). Com as unhinhas dos pés pintadas de vermelho. Meu, era muito estranho. Inverno, um frio dos infernos, e os tamancos lá, (des)combinando com o uniforme Adidas. Ana Cristina e eu voltávamos para nossas casas na Kombi escolar. A perua do Tio Mário ("van" é coisa de tempos modernos. Era perua mesmo, como de feirante). Tudo bem que a escola ficava a apenas duas quadras da casa da minha avó. E minha tia podia perfeitamente me apanhar todas as tardes, na hora da saída. Só que....eu não confiava nos meus familiares, he. Achava que ninguém iria me pegar na escola e levar de volta pra casa. Tinha certeza de que, com o Tio Mário me desovando diariamente no portão da vovó, não teriam como me devolver. Ah, e outra coisa: eu não era boba e já tinha me ligado de que subir todos os dias a rua Agudos a pé - praticamente uma parede de rapel - seria punk. Assim, para me tranquilizar, minha mãe me botou na perua. Embora a jornada até o lar durasse cerca de trinta segundos, eu fazia questão de me sentar junto à janela. E a Ana Cristina também. Copiona. Então, quando tocava o sinal de saída, nós duas catávamos nossas lancheiras e começávamos uma corrida em direção à perua, que acabava quando uma de nós se sentava junto à janela do lado esquerdo. Tá, a Kombi tem dois lados para serem ocupados, direito e esquerdo, eu sei. A gente não precisaria disputar um lado só. Mas o lance não era só pegar a janela. Existia um acordo tácito entre a gente de que a perdedora se sentaria sempre ao lado da campeã, para ser humilhada durante o trajeto (rapidamente humilhada, vez que eu descia da perua pouco tempo depois de ter subido). Bom, a Ana Cristina, calçando aqueles tamancos, seria uma eterna perdedora. Experimenta você correr de tamancos. Minhas velozes e bem amarradas congas com solado de borracha bateriam com facilidade aqueles tecos de madeiras com tiras instáveis. Mas o meu calcanhar de Aquiles....era a escada. O jardim da infância ficava no primeiro andar. Havia uma escadaria para descer antes de se chegar ao pátio da perua. E....hehe....aos quatro anos de idade eu ainda não sabia descer degraus. Esse negócio de colocar o pé direito em um degrau, o esquerdo no seguinte e assim sucessivamente....eu não conseguia. Eu colocava os dois pés, sucessivamente, em todos os degraus. Agarrada no corrimão, com medo de cair. E até hoje eu me atrapalho, não tem jeito de eu descer uma escada na correria. Assim, enquanto uma manada de crianças descia na velocidade da luz a merda da escada que não acabava nunca, eu, a passos de tartaruga, tentava ultrapassar os tamancos nipo-lusos. Muitas vezes eu vencia e conquistava o pódio - ou melhor, o assento. Para minha sorte, a Ana Cristina nunca teve a brilhante ideia de correr descalça.

Mas enfim. Na porta do show do Lanegan, mais de trinta anos depois do Patuá, a inglesa era o inimigo a ser derrotado. O alvo: chegar antes ao lado direito do palco, primeira fila. Olhei para os pés da mulher. All Star ao invés de tamancos. Bosta. Eu era a sétima pessoa da fila. Abriram a porta do clube, a inglesa disparou, eu fui atrás, enfiando o ingresso nas fuças do bilheteiro. Só que, no meio do caminho até o palco,...degraus de descida. Me atrasei ainda mais. Quando eu já ia me dar por vencida, chego ao lado direito do palco e....estava vazio. A inglesa estava do lado esquerdo. Tsc, tsc, quanto amadorismo. Depois de duzentos shows do Lanegan a fulana ainda não tinha aprendido que ele sempre se posiciona do lado direito do palco? Olhei para o palco e entendi: o suporte do microfone do lado esquerdo estava bem mais alto do que o do lado direito. E daí, fofa? Já ouviu falar num troço chamado "banda de abertura"? O microfone do lado direito não estava regulado para a alta estatura do Lanegan simplesmente porque ele não se apresentaria em primeiro lugar.

De fato, do lado direito da platéia, perto do palco, logo se formou um ajuntamento de fêmeas. Laneganetes do lado direito, rapazes e suas namoradas do lado esquerdo. Atrás de mim, uma menina com dois piercings espetados no lábio comia uma banana (!), que ela tirou de uma mochila. Do meu lado esquerdo, uma senhora grisalha (as européias tias acham bonito exibir uma cabeleira estilo gambá). Do lado direito, uma mãe gorducha com a filha gorducha e uma senhora desdentada. Ainda bem que o Lanegan só canta de olho fechado. Antes do show de abertura começar, eu resolvi me sentar no palco, que era baixo, e assim evitar que as bananas da menina da boca com pregos ficassem roçando nos meus cabelos (ela, a maior interessada, não parecia muito preocupada com isso). Foi aí que eu vi quando abriram a porta do....hã....backstage (camarim?). Era um quartinho pequenino. O Lanegan estava sentado em uma cadeirinha de ferro, dessas de armar. Os rapazes da apresentação de abertura saíram de lá. Era o Duke Garwood, acompanhado de um violinista magro e cabeludo tipo Jesus e por um outro tiozinho que se sentou em uma mini-mini bateria. O Duke Garwood faz um som tipo blues, com violão. Tem duas músicas muito bonitas, e outras que já esqueci. Durante o show, olhando para o vão embaixo da porta, dava para ver a sombra dos pés laneganísticos lá, no lugar da cadeirinha. Quando acabou a apresentação, o trio voltou para o quartinho. Abriu a porta e eu só vi um Mark sorridente pulando da cadeirinha e abrindo os brações para parabenizar os amigos.

E aí o roadie entrou no palco, baixou a altura do microfone esquerdo, subiu a do microfone direito. A cara da inglesa foi para o chão. Lancei pra ela aquele olhar maligno cultivado desde os meus quatro aninhos. "Chupa! Trouxa, hehe". Lanegão entrou junto com o guitarrista Dave Rosser, e as mil pessoas que estavam lá foram ao delírio. Puxa, seis anos sem shows da carreira solo do cara. Gostam muito dele no Reino Unido, muito mais do que nos EUA, seu país natal. Ah, foi tudo bem lindo. Repertório distribuído entre músicas solo, canções do Screaming Trees, uma do Queens Of The Stone Age, um cover muito legal de Julia Dream, do Pink Floyd. Eu chorei em Bell Black Ocean porque lembrei da minha avó. É a música mais bonita do show, que ficou mais delicada na versão acústica. Também descobri uma coisa que até então eu não havia sacado: em todo o show, o cidadão sua pra burro. Na última música dos shows, ele tá sempre encharcado e visivelmente acabado, cansado. Eu sempre pensei que o motivo era o calor provocado pelas luzes do palco. Até reparar, nesse show londrino, que o guitarrista - que se move muito mais do que o cantor - estava sequinho. Então eu observei melhor e entendi. O suor é devido ao esforço que o cara faz para modular a voz e soltar aqueles grunhidos mais graves. Ele canta fazendo caretas, puxando o ar com força pra dentro dos pulmões, apertando os olhinhos devido à força na hora de liberar o vozeirão. Resumindo: ele tem técnica. Sabe cantar, conduzir e segurar uma canção praticamente sozinho (suprindo as limitações da falta de instrumentos - no caso, um único violão que corria atrás da voz do Lanegan. Não o contrário. Mark que ditava o ritmo). Ao fim de cada música, o pessoal aplaudia e o Lanegan ficava sem graça, baixava a cabeça, olhava para os pés. Como se ele não merecesse o reconhecimento. Até que uma moça berrou para que ele desse um sorriso. Ele ficou vermelho e sorriu - mais por ter sido pego de surpresa do que por vontade de sorrir mesmo, hehe. E todo mundo soltou um AHHHH coletivo (do tipo, "Ahhhh, que bonitinho!") e riu dele. E ele ficou roxo de vergonha. Funny. A cena tá aqui.

Houve um bis, um segundo bis. Fim. E aí eu queria cumprir uma missão: perguntar para o homem se afinal de contas haveria ou não show em São Paulo. Meus queridos amigos, também fãs, queriam saber e todo mundo já estava meio sofrendo com a expectativa. Então não pensei duas vezes em apelar para um suborninho, uma pequena chantagem sentimental, he. Quem já se interessou em ler os posts deste singelo bloguinho já reparou que eu sempre presenteio o Lanegan com livros, no fim de cada show (ou no meio. Uma longa história). Só que dessa vez resolvi fazer diferente. É que as fotografias dos shows denunciam: nos últimos cinco anos o Lanegan usou, infalivelmente, a mesma (!) camisa. A camisa do Lanegan é uma versão indie para os tamancos lusitanos da Ana Cristina. O mesmo apego inexplicável. O Lanegan deve ser aquele tipo de cara que só compra roupa nova quando a atual fura (mas se fura em partes visíveis para o público. Tipo....no sovaco, ainda dá pra usar), no Carrefour mais próximo da residência dele. Então, antes do show dei uma passadinha na Topshop, loja londrina que é uma espécie de C&A, vai. Lá eu achei uma camisa jeans muito decente. Jeans é bom porque é fácil de lavar, secar e não amassa. Na etiqueta pregada na altura do pescoço tinha impresso um puta "MADE IN CHINA" gigante. Fiquei pensativa. Pega mal? Não, né. China ué, por que o mau juízo em pensar que os bens manufaturados chineses são inevitavelmente ralés? Camisa bem cortada, puxa. Alfaiataria oriental. Bom, superados meus preconceitos, veio o problema do tamanho. Que tamanho ele usa? Vixe, achei o tamanho grande meio pequeno para os ombros largões do sujeito, que é robusto e fortinho (não gordo. Compacto). A gente tem que pensar que o designer chinês projetou a camisa visando o homem inglês médio, que é esbelto e tem corpo de gazela. Mark é americano, não lembra em nada aquela figura tipo Papai-Pernilongo do príncipe Charles. E assim decidi, inchada de orgulho do meu bom gosto: camisa made in China extra-large. Afinal, o que abunda, não prejudica! Você pode contemplá-la aqui. Esse treco marrom que aparece ao lado dela é a embalagem de pano dentro da qual a coloquei, dobradinha, e que depois foi amarrada com uma fita. Lógico, antes eu borrifei no sino-anglo-jeans uma nuvem de Armani Code, o melhor perfume do planeta. Ah, e dentro eu coloquei também um cartãozinho mostrando na capa uma bonita pintura japonesa (para combinar com o clima oriental, hehe), no qual escrevi uma respeitosa mensagem com caneta lilás (perfume de framboesas). Escrevi que a camisa era um presente meu e de vários amigos, fãs dele, que não tinham como viajar para vê-lo. Escrevi também que dessa vez não tinha tido nenhuma grande ideia para um livro, mas que eu achava que talvez ele andasse precisando de uma camisa. Adoro ser útil.

Acabada a apresentação, a massa deixou o clube. Sobraram umas dez pessoas. Aí ele apareceu e o pessoal começou a pedir autógrafos e fotos. Esperei minha vez, cheguei perto. "Oi. Lembra de mim?". "The girl who always gives me books". Ha. Ele é tímido, fala baixinho. Eu sou tímida, falo baixinho. Então a conversa pareceu mais um cochicho. Tirei o sacão de pano da minha bolsona, falei que era presente meu e....bom, eu precisava dar um número mais ou menos exato das pessoas presenteantes. No cartão eu havia posto que era presente dado por várias pessoas. É que eu dei o presente em nome de um grupo. Mas só depois o grupo ficou sabendo disso, hehe (ninguém achou ruim. Então o gesto foi ratificado). Mas quantos? Fiz rapidamente uma conta por cima....Iago, Maria, Claudio, Daniel, Eduardo...fui calculando. "Presente meu e de mais vinte pessoas". Foi o que falei. Não é um número exuberante, mas eu não queria mentir. Ele agradeceu. E aí eu comecei o interrogatório. "Você vai voltar para São Paulo esse ano?". "Eu estou tentando. Talvez agora no verão eu vá" (nosso inverno). "Vai, vá, por favor.". "'É, eu tô tentando."."Ah, por favor, vai, vá, diz que sim, vai, por favor, vai". "Eu tô tentando". "Mas tá mesmo?". "Tô". "De verdade?". "Tô tentando". Hehe. O homem é um poço de paciência. Depois do sétimo "I'm trying", eu de mãozinhas cruzadas em posição de quem implora, ele me interrompeu para perguntar..."Er...quantas pessoas mesmo você disse que deram o presente?". "Vinte". Ele arregalou o olho e exclamou "Jesus!" ("Djísus!"). Que coisa. Aquilo que pra mim era pouco, para ele era muito. Bom, aí outros fãs esperavam para falar com ele. Era hora de ir embora.

As pessoas se despediam com apertos de mão, então segui o protocolo. Falei um tchau, estendi a minha, ele pegou nos meus dedos sem pressionar, como se fossem de vidro. Parecia mais um jeito desajeitado de segurar na mão do que um aperto de mão. E aí que veio meu susto. Porque ele não disse nada. "Bye" ou "thank you", absolutamente nada. Ele não abriu a boca e não sorriu, não mexeu um músculo sequer da face. Ele deu um passo para frente, inclinou a cabeça procurando enxergar meus olhos meio cobertos pela franja e....por uns dois segundos me encarou com a expressão mais séria que eu me lembro de um cara ter me olhado. Fiquei pasma. Porque ele me olhou de um jeito que eu apenas vi em homens....olhando para outros homens. Nunca para uma mulher. Da forma que um homem olha para um homem por quem sente muita consideração e respeito. Esclarecendo: o olhar dele não tinha nada de malicioso. Não, ele não tá a fim de me pegar, tenho certeza (azar o meu, que não sou irresistível. Mas tudo bem, dá para viver conformada, hehe!). E - mais importante - o olhar dele não tinha nada de paternal. Ou de ares professorais. O olhar dele não me reduzia a uma menininha, a uma aprendiz. Aumentava. Mesmo ele sendo (bem) mais alto do que eu, eu me senti gigante. E aumentava porque dava - e reconhecia - valor. Foi como se ele me dissesse: "O fato de você gostar tanto da minha música é um privilégio totalmente meu! Não seu.". Isso é muito, muito raro vindo de um cara. E justamente de um cara genial. Porque homens são seres extremamente vaidosos (não, não sou feminista. Só vou escrever aqui o que já testemunhei nestes meus trinta e cinco anos). Não digo vaidade referente a aparência física. Estou falando de ego. E uma das manifestações de vaidade mais frequentes é o autoelogio. Direto ou como falsa modéstia. Depois do tal olhar do Lanegan, imediatamente passaram pela minha mente as várias vezes em que, após contar alguma vantagem, algum sujeito me olhou com expressão de "ah, como você é privilegiada por me conhecer", "ah, como você é privilegiada por estar comigo", "ah, como você é privilegiada por aprender comigo". Não tem nada mais ofensivo para a inteligência de uma mulher do que ser transformada em mero espelho do ego inflado de um homem. E não existe atitude mais cafona, patética e constrangedora, para um cara, do que o falar bem de si próprio. Do que dar nota (alta) para a própria competência - seja profissional, seja cultural. Eu não quero ouvir, por exemplo, fulano me dizendo quantos Júris ganhou ao longo da carreira. Não quero ler sicrano anunciando a importância de um artigo publicado - que ele mesmo escreveu. Não que eu não fique contente com as conquistas e satisfações alheias e não queria saber a respeito delas. Lógico que quero. Mas quero saber pelos outros. Pelos outros. Porque se o cara é bom, bom mesmo, cool.....com certeza os outros reconhecerão seu valor e as boas novas chegarão aos meus ouvidos e olhos. E aí - só aí - eu vou achar bacana e ficar feliz. Autopropaganda, para mim, é só bullshit. E propaganda de si próprio eu nunca - nunca - ouvi ou li Mark Lanegan fazendo. Em entrevistas, ele nunca engrandece o próprio trabalho. Ao contrário. Engrandece o trabalho daqueles com quem colabora. E se é para falar de si, fala de seus reveses, conta o que deu errado - não o que deu certo. Em uma revista, ele comentou que, na época em que era vivo, Johnny Cash pediu que compositores lhe enviassem músicas inéditas para que ele escolhesse algumas e gravasse. Mark disse que mandou canções. E que foram reprovadas. Que coisa. Mark Lanegan é uma figurinha rara e para sempre super bem-vinda. Um rapaz nascido em uma cidadezinha caipira do tamanho de um ovo, filho de um professor de escola, não de um figurão. Não ocupa cargo de destaque em empresa importante, não é doutor de absolutamente nada. Um moço que há vinte anos viveu o auge da fama na era do grunge, mas manteve seus princípios. Que hoje em dia não virou um amargurado por não ser mais tão famoso e bajulado. Que é sinceramente feliz por não ser mais tão famoso e bajulado, e que derrama o coração na frente de mil pessoas da mesma forma que derramava na presença de dez mil, ou mais. Que não se incomoda em não ser a estrela principal e abrir shows de gente que atrai mais público do que ele (Soulsavers com Lanegan abriram os shows da turnê européira do Depeche Mode, ano passado). E que, quando é a estrela principal, não se esquece de prestigiar quem abre seus shows - mesmo que isso signifique ouvir a mesma apresentação pela décima vez, sentadinho em uma cadeira dura. Um cara que reage a um presente dado por vinte gatos-pingados da forma que muitos só reagiriam se fossem presenteados por duzentos. E que é capaz de olhar uma freak grudenta como eu de maneira solene, agradecida e honestamente humilde. Tudo isso tem nome. Educação. Classe. Porque vaidade é coisa de homem. Mas Mark Lanegan é Homem.

Fui embora do Scala, meio fora de eixo. Pensando nesse lance da vaidade. O que acontece com o mundo? Por que tantas mulheres aceitam tolerar a chatice vaidosa de tantos caras? Resolvi que estou fora. Virarei as costas, desligarei telefone, fecharei tela de computador toda vez que um mala resolver despejar seu ego em cima de mim, como se me presenteasse com algo muito precioso. Pronto. Serei má, muito má.
Depois do Scala, passei em um cyber-café, voltei para o hotel. No quarto, percebi que havia esquecido minhas luvas no café. Droga, não queria ficar sem elas. Tranquei a bolsa, desci de novo para a rua. Correndo feito uma louca pela Bayswater (que não tem degraus de descida), eu não conseguia parar de lembrar da pequena deferência do Lanegan. Que bacana, um olhar de apenas dois segundos, mas cheio de consideração, dois dias depois de eu ter chegado em Londres. Terra do Clash, terra da rainha. Nunca verei o Clash, não vi a rainha. Mas, em dois segundos, entendi perfeitamente o significado e o valor inestimável de ser tratada como uma.


(E no próximo dia 24 de junho, em São Paulo, no clube Comitê - que ainda não existe, mas existirá mês que vem - show do Mark Lanegan! Vamos?)

Monday, April 19, 2010

Quando a Arte vira Rock, Parte CXLV



Léonard Tsuguharu Foujita, Self Portrait, e Yasuharu Konishi, guitarrista, baixista e vocalista do Pizzicato Five.

Tuesday, April 13, 2010

American Junkie



Destemido o moço aí da foto. Deu a cara para bater justo no país do politicamente correto. Há uns meses seu livro foi publicado nos EUA por uma pequena editora. Emergency Press. É, eu também nunca ouvi falar. Nem da editora, nem dele. Mas na contracapa uma frase entre aspas aparece destacada. Curtinha, nem dá para dizer que seja uma resenha. É mais uma constatação do que um elogio. "Heavy like the dark stuff itself." Pesado como a própria heroína. É a opinião de Mark Lanegan. E se eu recomendo livros para o Lanegan, justo então que eu leia um por ele "comprovado e atestado", vai. Whatever. Comprei pelo Amazon e li "American Junkie", que na versão e-book do Smashwords custa só nine bucks. Foi a melhor coisa que eu fiz nesse ano. Já terminei a leitura faz uns dias. E me sinto órfã. Bateu aquele banzo pós-livro sensacional. Aquela melancolia por saber que vai levar tempo para um livro tão bom quanto esse me ganhar. Aquele desânimo só de pensar no quanto vou ter que esperar até o lançamento da próxima obra do cara. Se ele lançar. Tudo isso porque "American Junkie" é perfeito em todos os aspectos. Tom Hansen não escreve bem. Escreve absurdamente bem. Redação límpida, inglês descomplicado, direto, coloquial mas elegante, mesmo usando gírias. Frases curtas, estendendo-se por no máximo três linhas até as palavras serem barradas por um ponto final. Como tem que ser. Em regra, três páginas formam cada capítulo. E cada capítulo lembra uma pequena crônica, terminando de um jeito que faz a garganta da gente sempre dar um nó. Hansen é habilidoso o suficiente para montar textos que misturam, na dosagem certa, cultura pop, reflexões irônicas, tristeza, música, romance. Em nenhum instante a história se perde, o ritmo cai ou a leitura se dispersa. Não há capítulos dispensáveis, parágrafos deslocados, frases sem sentido.

O estilo de Tom é muito semelhante ao de outro autor incrível, que eu adoro: Alan Lightman. O que eles têm em comum? Lightman é professor de redação criativa no Massachusetts Institute of Technology. Hansen tem pós-graduação na mesma disciplina. E só. As diferenças? Brutais. Alan Lightman, 61 anos, é cientista. Tom Hansen, 48, viciado e traficante de heroína. Aparentemente aposentado nas duas funções.

Tom mora em Seattle. Nos anos 90 foi ele o traficante que abastecia de heroína Mark Lanegan, Layne Staley (o falecido vocalista da banda Alice in Chains - com o qual, aliás, Hansen muito se parece fisicamente), Kurt Cobain. E o bacana do livro reside justamente aí: não, não é uma história de fofocas para fãs de banda alguma. Lanegan e Staley são citados em um único capítulo: Tom ia diariamente ao apartamento do Mark, descrito como um lugar caindo aos pedaços, atolado por pilhas de discos e...livros (ahá - eu adivinhava!). Um Kurt Cobain já famoso também cruzou o caminho de Tom, que registra: "it was very strange, he was one of the most visible people on Earth and I was the most invisible, and yet I had something he needed". E pronto, acaba aí a participação dos famosos, meros coadjuvantes em uma autobiografia que se sustenta exclusivamente na sublime capacidade de Tom se fazer interessante.

"American Junkie" abre com Tom quase morto: é internado em UTI desnutrido, abatido por hepatites de A a Z, pele, músculos e ossos literalmente devorados pela heroína. Na capa da biografia, a ilustração é o croqui do primeiro exame do autor após a internação, mostrando verdadeiros buracos nas costas, batatas-da-perna, bunda. Partes do corpo onde Hansen injetava a droga, depois que as veias dos braços se tornaram imprestáveis. Ao longo da história, Tom Hansen tenta entender e explicar como e porque a droga se tornou seu ganha-pão...e o pão. E é aí que o livro brilha. Porque o próprio Tom admite que não sofreu nenhuma tragédia pessoal que desencadeasse o consumo ou a vontade de traficar: infância humilde, mas filho de pais carinhosos, bonito, namoradas e amigos presentes, oportunidades para estudar e trabalhar na legalidade. Não existe vergonha, arrependimento, mea culpa, "não faça isso em casa". Nem redenção ou pedido de desculpas. Mas ao mesmo tempo não há apologia alguma ao uso de drogas ou ao tráfico. Hansen só não esconde que era bem feliz tocando o próprio negócio sem patrão, sem pretensões de riqueza, faturando o suficiente para não ter preocupações em saldar dívidas. Tom não posa de injustiçado social e deixa bem claro que foi traficante e viciado por - e não por falta de - opção. E não espera o perdão de ninguém. Muito pelo contrário. Ele tenta soar o mais antipático e sarcástico possível: é seco e impaciente com os enfermeiros e médicos que tentam curá-lo, revela que uma menina morreu de overdose minutos depois de ter vendido heroína para a moça, conta que dedava traficantes mais graúdos para negociar sua liberdade com a polícia, lembra que enquanto dirigia pelas ruas de Seattle, para fazer as entregas, ironicamente era o único motorista a respeitar o limite de velocidade. É curioso: Tom Hansen dá uma série de motivos chocantes para qualquer um não comprar e não ler a sua biografia. O trecho na contracapa já dispara, sem papas na língua do escritor: "...It's a lie what they say about the drug world, that it's a savage place full of backstabbing sociopaths. Some parts are that way of course, at least I suspected there were, however I had never seen it. I'd found a niche that provided safety and security. No one was going to fire me, demote me, ship my job overseas, cut my hours or my pay. The drug business was impervious to economic forces and manipulations, it was recession and depression proof because it was outside the other economy, the corrupt economy. There was no living from paycheck to paycheck, pinching pennies. There were no worries, as long as I took a few simple precautions. People would always need drugs. They didn't need to be talked into it with some tits and ass on a billboard. They just needed them. It'd been that way since the beginning of time and it would be that way until the end".

Bom, mas eu li o livro. E adorei. E ninguém precisa concordar ou discordar do autor para identificar um livraço. Que poucos vão se dispor a comprar. Tom fez as contas: vendeu heroína 65.700 vezes, foi o melhor e mais confiável traficante de Seattle. Talvez não venda nem 657 livros. Pena. Ele é hoje um dos melhores escritores americanos vivos. Tomara que deixe de ser uma das pessoas mais invisíveis do planeta.

Tuesday, February 23, 2010

Amazing Story

Uma historinha louca tá rolando esses dias!

Começou da seguinte forma: há anos eu sou fanzaça do Guillermo Arriaga. Escritor, roteirista e diretor mexicano. Ele escreveu os roteiros de Amores Brutos, 21 Gramas, Babel. Eu já postei um texto sobre ele aqui no blog, está aí ao lado nos arquivos. Arriaga é, para mim, o Lanegan da Literatura. Quem conhece a discografia do Mark Lanegan talvez já tenha reparado em "Blues For D". É canção que está no disco "Field Songs". Ela é especial por causa um detalhe engraçado: não tem nada da voz do Lanegan. É a única música instrumental dele. É absolutamente linda. Quando a ouvi a primeira vez, de cara pensei que tinha tudo a ver com os filmes do Arriaga. É uma música melancólica, que evoca paisagens áridas, pôr-do-sol, solidão.
O Arriaga tem conta no Twitter, que eu sigo. O homem é uma simpatia. Acabou de filmar um curta-metragem e vai viajar para Los Angeles, para a edição. Aí tive a ideia. Enviei para ele um link para "Blues For D". E ele me mandou messagem, dizendo que havia adorado a música e que poderia ser usada na trilha sonora de um dos filmes dele! Demais!!! Sugeri que ele procurasse o Lanegan usando o myspace (que é o site oficial do moço).

Tem coisa mais emocionante do que juntar seu cantor preferido com seu escritor preferido? Fiquei feliz! Bom, se não rolar, pelo menos o Lanegan ganhou mais um fã. E que fã!

Sunday, February 14, 2010

My Life According To Screaming Trees

Brincadeira do Facebook que a Anna querida enviou. Bem divertido! Funciona assim: você tem que responder o questionário abaixo. Só que as respostas devem ser nomes de músicas. E todas as canções citadas só podem ser de um mesmo artista ou de uma mesma banda. Não vale responder mais de uma pergunta usando a mesma música. E, lógico, as respostas têm que fazer um mínimo de sentido e estar de acordo com aquilo que você pensa, sente ou quer expressar. Se alguém fizer o joguinho, poste nos comentários, please (dá para comentar anônimo se você temer o mico - não tem como eu saber quem é mesmo moderando os comentários, juro). Quero ver!
E Lanegan provando que é mesmo a resposta para todas as minhas perguntas, he. ;)
1) Are you a male or female:
The Girl Behind The Mask

2) Describe yourself:
Ocean of Confusion

3) How do you feel:
No One Knows

4) Describe where you currently live:
End of The Universe

5) If you could go anywhere, where would you go?
Straight Out To Anyplace

6) Your favorite form of transportation:
Orange Airplane

7) Your best friend?
She Knows

8) You and your best friend are:
Closer

9) What's the weather like:
Cold Rain

10) Favorite time of day:
The Second I Awake

11) If your life was a TV show what would it be called?
Story of Her Fate

12) What is life to you:
The Pathway

13) Your relationship:
Lonely Girl

14) Your fear:
Troubled Times

15) What is the best advice you have to give:
Don't Look Down

16) Thought for the Day:
Change Has Come

17) My motto:
Other Days and Different Planets

Tuesday, January 26, 2010

2009 - Parte 4 - Livros























Livros que fizeram diferença na minha vidinha, ano passado.

"I See a Darkness", Reinhard Kleist
Biografia em quadrinhos de Johnny Cash publicada meses atrás, inclusive por aqui. Inteira em preto-e-branco. Soturna, mas impactante: os desenhos em perspectiva parecem saltar do papel. Reinhard Kleist, quadrinista alemão e grafiteiro em Berlim, conta a história do cantor americano de uma forma mais abrangente do que aquela retratada no filme "Johnny & June". O filme prioriza o romance com June Carter, os quadrinhos valorizam cada momento árduo e sofrido da trajetória de Johnny: a infância pobre como lavrador, a perda do irmão querido, o modesto sucesso que levou ao vício em anfetamina, as explosões de agressividade, o lendário show para uma plateia de presidiários. E, no finzinho, a velhice melancólica e doente. Johnny deitado na cama, se contorcendo em crise de abstinência, é o desenho mais tocante e inesquecível de toda a biografia. O livro é uma homenagem bonita, emocionante e criativa a Johnny Cash, tão genial, tão subestimado.


"After the Wall", Jana Hensel
Você se lembra do lado pop da sua infância? Dos desenhos animados Hanna-Barbera, do seriado Chip's? Das balas Paquera? Quando o Muro de Berlim foi derrubado, Jana Hensel era um ano mais nova do que eu. Treze anos. Entrando na adolescência, a alemãzinha oriental viu seu passado ser soterrado junto com os escombros do cimento e dos tijolos arrebentados. Crescida, já jornalista, Jana escreveu uma pequena biografia revelando aspectos do cotidiano e da cultura pop em um país comunista. Os programas estatais de TV, os produtos limitados que eram vendidos nos mercados, as revistas controladas pelo governo, o único tipo de tênis disponível nas lojas, a tentativa dos jovens europeus do leste em imitar os do oeste, com roupas e cabelos inspirados nas bandas de rock Depeche Mode e The Cure. A queda do Muro significou o fim de um regime autoritário. E também uma mudança brusca e imediata na vida de adolescentes e crianças que cresceram impedidos de tomar contato com a cultura de massa ocidental - mas que, da noite para o dia, se viram invadidos por ela. Quando, depois da unificação alemã, Jana vai morar na França em uma república de estudantes estrangeiros, sua ignorância e desconhecimento sobre a existência de ícones pop como Smurfs, Asterix, a trilogia Senhor dos Anéis, a exclui das conversas animadas. No fim do livro, um desabafo: na década de 90, jovens alemães orientais se consideravam mais próximos de húngaros, tchecos e poloneses do que dos estranhos e esnobes alemães ocidentais.


"A Rainha Margot", Alexandre Dumas
Eu sempre achei que Joel Surnow é Alexandre Dumas reencarnado. O americano Joel Surnow é o criador e produtor do seriado "24" (e também de "La Femme Nikita", minha série preferida de todos os tempos. Só eu via). Joel Surnow sabe misturar como ninguém intrigas envolvendo chefes de Estado, traições, vingança, tramóias, conspirações, tortura, assassinatos. E o melhor: consegue bolar reviravoltas inesperadas em enredos frenéticos, que prendem a atenção da gente até o próximo capítulo. Tudo isso, Alexandre Dumas fez. Só que no século XIX. Ao invés de presidentes americanos, os poderosos dos romances de Dumas são os monarcas franceses. No lugar do capanga guarda-costas Jack Bauer, os capangas guarda-costas mosqueteiros do rei. Da mesma forma que Surnow, Dumas usa fatos históricos como pano de fundo em seus livros. Se em "24", americanos combatem terroristas, no sensacional "A Rainha Margot" a luta é entre católicos e protestantes. Em 1572, Margarida de Valois se casa com o rei Henrique de Navarra. Ela católica, ele protestante. O casamento é uma tentativa de apaziguar a hostilidade entre os dois grupos religiosos. Só que a sogra do rei, a perversa Catarina de Médicis, quer se livrar do genro, secretamente...o auge da tensão rola no dia 24 de agosto daquele ano, quando milhares de protestantes são massacrados nas ruas e casinhas de Paris. Foi a terrível Noite de São Bartolomeu, que teve um objetivo: desqualificar, enfraquecer e destronar o marido de Margot. A ordem para a matança partiu do palácio do Louvre. Mesclando acontecimentos reais com fatos fictícios, ágeis e bem amarrados, Alexandre Dumas escreveu um livrão. Nos dois sentidos.

"Things The Grandchildren Should Know", Mark Oliver Everett
O americano Mark Oliver Everett não é apenas Eels, a banda rock-folk de um homem só. Mark Oliver Everett é também o Homem Mais Desgraçado do Mundo. Desgraçado não no sentido de sacana, mas de cheio de desgraças, mesmo. Seu pai sofreu infarto e morreu. Um avião caiu no meio da rua onde morava (!), e Mark se viu cercado por corpos. A irmã drogada foi estuprada - não por um homem, mas por uma gangue deles - e se matou. Antes disso, o próprio Mark quase foi assassinado pelo namorado dela. Mark foi seguidamente largado por todas as namoradas, perdeu a mãe, vítima de câncer de pulmão. Sua melhor amiga também morreu. Morreu o roadie da banda. Morreram os primos no 11 De Setembro, dentro de um dos aviões sequestrados. Até a vizinha do sujeito não foi poupada: morreu também. Mas o que mais impressiona no livro autobiográfico desse verdadeiro pára-raio de infortúnios não é a sucessão de zicas - e sim a capacidade de Mark em imprimir um tom otimista, e de certa forma bem-humorado, à sua história lazarenta, sem um pingo de autopiedade, zero de amargura. Uma história triste, que teve o grande mérito de resultar em um excelente livro. Não por causa do teor trágico e comovente de seus vários episódios dolorosos, mas sim pela forma suave através da qual Eels conseguiu redigí-los. Isso é saber escrever. Mark Oliver Everett é, hoje, um homem sozinho. Vive na companhia de um cachorro. Consolo? Umas palavrinhas de Schopenhauer talvez ajudem. "A solidão é a sorte de todos os espíritos excepcionais".


"Juliet, Naked", Nick Hornby
Um inglês bocó é fanático por um cantor e compositor americano meio desconhecido, que encerrou a carreira há anos e sumiu do mapa. O bocó vive junto com uma coitada, uma moça resignada que atura a obsessão do marido sem reclamar. Graças ao lançamento de um novo disco pelo cantor - uma compilação de músicas toscas e rascunhadas - os fãs se agitam e discutem o grande acontecimento através de um site na internet. É quando o americano entra em contato com a mulher do bocó.
Lendo a história, eu vesti a carapuça umas duzentas vezes. Eu queria ser a mocinha, mas meu passado, presente e futuro denunciam: eu sou o bocó.
Comédia bacana, divertida! Livro que eu daria de presente para qualquer um, tranquilamente. Menos para Mark Lanegan.

Friday, January 08, 2010

Herói Sem Máscara

Pausa na retrospectiva de 2009 - vou postar o texto do Robert Downey Junior que foi publicado mês passado na revista Movie, tá. Minha versão original. Agora saiu quase na íntegra também no site da revista, todo bonitão, cercado por fotos, vídeos e com a listinha de bizarrices e curiosidades que descobri sobre o moço. Vai lá. E volta aqui. Ou lê aqui e vai lá.
Foi em 1970 que Robert Downey Senior entregou ao filho, nascido cinco anos antes, o presente insólito. Um papel. O primeiro papel de Robert Downey Junior como personagem em um mundo inédito, fascinante, de sonhos fabricados. Era o início precoce no cinema. Aos oito anos de idade o ator mirim foi de novo presenteado pelo pai diretor. Outro papel, bem diferente do anterior. Enrolado, trazendo um recheio inusitado: maconha. O primeiro papel do garoto novaiorquino como personagem um mundo também desconhecido e atraente, mas doloroso, de pesadelos tóxicos. Era o início precoce no vício.
Estúdios, bastidores, cenários e câmeras viram Robert crescer. Sua formação incluiu até mesmo aulas de ballet. Teen, marcou presença em comédias assinadas por John Hughes. Adulto, duas disputas ao Oscar: em 1993, por melhor ator graças à personificação magistral de Charles Chaplin em Chaplin; este ano, para melhor coadjuvante por roubar a cena no hilário Trovão Tropical, irreconhecível no papel de um negro. São mais de 60 filmes em 36 anos de carreira, cinco dos quais ele conciliou trabalhos na TV: na série Ally McBeal, ele também canta, improvisando covers de canções de Bruce Springsteen, The Police.
Tamanha produtividade já impressionaria se Downey Jr. fosse o tipo de astro centrado, disciplinado, moço certinho. Como Tom Cruise. Não é. Se a extensa filmografia de Robert é capaz de intimidar o ator veterano mais experiente, sua ficha policial surte igual efeito em qualquer rock star explosivo e descontrolado. Dependente químico, por anos alternou estúdios e sets com rehab, delegacias, tribunais, prisão. Detido por posse ilegal de arma e drogas, peitou ordens judiciais, violou condicionais, foi flagrado dirigindo seu Porsche, bêbado – e pelado. Criou constrangimentos para diretores, elencos: nas filmagens de US Marshals, foi vigiado por oficial de justiça e companhia de seguros. Sua urina era colhida e testada de três em três horas para que fosse detectada a possível presença de substâncias ilícitas.
Claro que Downey Jr. não foi o único ator de sua geração a mesclar fama e encrencas com a lei. Mickey Rourke agrediu a mulher e foi preso; câmeras gravaram Winona Ryder furtando uma loja. Após esses vexames, ele deu um tempo na carreira para se dedicar ao boxe, ela fugiu dos holofotes. Robert ficou, provando que é a antítese do iron man: um ser de carne e osso cujo corpo doente nunca se beneficiou da proteção de uma carapaça metálica para evitar seu pior vilão: o próprio ator. O herói revelou sua fraqueza, seu sofrimento, seus defeitos para o público e mídia com o rosto exposto. Sem máscara.
Em 2003, Robert reconheceu seu ponto de saturação. Manter uma carreira (senão de sucesso, ao menos estável), a proximidade dos amigos e de Indio, o filho hoje adolescente, reconquistar a confiança de cineastas e produtores: boas razões que pesaram para o adeus definitivo dado às drogas. Durante as filmagens de Na Companhia do Medo, Downey Jr. conheceu Susan Levin. Robert estava se divorciando da mãe de Indio. Comentando o filme tempos depois, ele afirmaria que sua melhor lembrança do set era ter xavecado – e ganhado – a produtora. Mas Susan foi taxativa: não se relacionaria com um viciado. A reação de um Robert apaixonado veio sob forma de canção. Em 2004 foi lançado The Futurist, único álbum do ator que compôs melodias e escreveu letras para oito baladas com tom folk. “Se você acha que sou apocalíptico, ou frio e obscuro...por favor, nunca vá embora”, a voz suave de Robert confessa e implora na triste Little Clownz. Susan atendeu a súplica. E qual namorada abandonaria um cara que lhe dá, de presente de aniversário, um pedido de casamento e na noite do Oscar a apresenta às emissoras de televisão anunciando: “esta é minha eterna mulher”?
Aos 44 anos, Robert é o astro carismático plenamente comfortable in his own skin – à vontade na própria pele. Nas telas, sua atuação é tão desenvolta, natural e segura que transmite a sensação de que, mesmo após o grito de “corta!”, o personagem sai do set e continua a existir na realidade. A escritora Anne Rice o quer como vampiro Lestat na continuação de Entrevista Com O Vampiro, Hugh Hefner disse que ficaria honrado se Robert o interpretasse em seu filme biográfico (e há algo mais cool do que ser solicitado pelo próprio e lendário criador da revista Playboy?). Homem de Ferro 2 está a caminho e Sherlock Holmes tem tudo para ser o blockbuster do verão: no filme, o detetive mais famoso da literatura é boêmio, brigão, mulherengo e se veste com trajes vitorianos inspirados no rolling stone Brian Jones. E Robert empresta ao personagem seu traço mais charmoso: aquele sorriso um tanto sarcástico, meio safado, 100% sedutor que se insinua quando o ator ergue as sobrancelhas. Irresistível.
Drug-free, Downey Jr. vem sendo agraciado com todas as honrarias pop dignas de um astro que se firmou na indústria mais competitiva e imprevisível do universo das artes. Cravou sua estrela na calçada da fama, é medalha de bronze na lista deste ano da revista Empire que elegeu os 100 sexiest movie stars (atrás de Robert Pattinson e de Johnny Depp, o campeão), virou peça de museu: um clone de cera está ao alcance dos fãs no supervisitado Madame Tussauds em Hollywood. No ano em que a séria e tradicional Academia de Cinema preferiu prestar uma homenagem ao falecido Heath Ledger, concorrente de Robert, a descolada Academia de Ficção Científica, Fantasia e Filmes de Terror sentenciou: Robert Downey Jr. é o melhor ator de 2009 por Homem de Ferro. E se o Oscar 2009 não sorriu para Robert, não será Robert que provocará sorrisos e risos no Oscar 2010: “não, obrigado” foi a reposta ao convite para ser o apresentador da próxima cerimônia. Lógico. A ambição máxima do ator não é subir no palco para ter visão privilegiada de seus colegas (não raro, gente de talento inferior ao seu) faturando prêmios. Robert quer mais. Quer, sim, descer do palco segurando uma estatueta dourada. A dele. E ele sabe – como nós também sabemos - que está muito perto de conseguir. Óbvio. Os super heróis sempre vencem no final.